O DIFÍCIL DEBATE DOS VALORES MORAIS
NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA
FACE AOS VALORES BÍBLICOS (*)
“Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados…”(Efésios 2:1)
“(…) nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus.”(2 Coríntios 4:4)
“(…) mas também o retorno à sensatez, livrando-se eles dos laços do diabo, tendo sido feitos cativos por ele, para cumprirem a sua vontade.” (2 Timóteo 2:26)
Se não há uma referência absoluta, os valores são resultado ou da consciência individual ou da consciência colectiva num determinado momento e em função de situações específicas. Aquilo a que se chama moral situacionista. Hoje será assim, amanhã pode ser diferente. Depende das vantagens que pode garantir aos seus proponentes e mentores. Moral de classe ou de cultura.
Razão tinha Dostoievsky quando escreveu que: “Se Deus não existe, tudo é permitido”. Não significa que não subsistam normas morais porque, sem elas, a sociedade não pode subsistir, mas elas não têm um suporte estável, credível e permanente. Tudo pode ser contestado na medida em que o homem torna-se a medida de todas as coisas e não se pode argumentar em favor da superioridade de um ponto de vista em relação a outro, porque todos têm a mesma procedência. Em última instância tudo fica em função da cultura e do período histórico que se está a viver. Neste enquadramento como poderemos levantarmo-nos contra o que aconteceu nos regimes totalitários fascistas ou comunistas? Como levantar a voz contra o aborto ou até contra a pedofilia? Se eu penso de uma determinada maneira, porque razão é que os outros não podem pensar de forma diferente? Se eu considero que algo é condenável, porque é que outros não hão de considerar esse comportamento defensável? Sempre que Deus morre no coração do homem ou de uma sociedade, a saúde não fica muito boa (veja-se, como exemplo, o resultado da filosofia de Nietsche e a sua influência no regime imposto por Hitler, cujas consequências afectaram o mundo inteiro).
Não há argumento que chegue para quem quer defender a todo o custo o seu ponto de vista e a sua opção.
Os argumentos que se podem usar são normalmente as consequências negativas de quem opte ou se feche num irremediável fatalismo. Algumas consequências, precisamente as de maior peso, têm apenas uma concretização eterna. Sabemos da sua gravidade também pelo que a morte de Jesus Cristo representou. O justo, santo e imaculado desde a eternidade, tomou sobre si o pecado de toda a humanidade e suportou sobre si tudo o que ele representa. A dor que encerra só Deus na forma humana poderia suportar (na cruz está o perfeito Deus e o perfeito homem!) A denúncia da cruz não é apenas o sofrimento, mas a sua causa, a sua origem e também a sua cura e libertação, na única forma de solução possível – Jesus Cristo dando a sua vida como substituto de cada pecador.
A principal questão social não é só gastar fortunas procurando minorar as consequências negativas das opções feitas, mas no uso dos meios de comunicação estimulando essas “opções”, considerando-as algumas vezes inofensivas e outras vezes neutras. Fomenta-se com a justificativa das audiências, o que, depois, tem de se atenuar com panaceias que ficam longe de resolver os problemas. Prazeres assassinos, quando não mesmo suicidas. O homem gosta daquilo que o mata, daquilo que o destrói.
Muito do sofrimento que as pessoas que se posicionam de certa forma experimentam, não é derivada apenas da “intolerância” social, mas, isso sim, dos próprios comportamentos assumidos. A ideia que tudo seria diferente se a sociedade aceitasse e integrasse esses comportamentos como certos e normais, não passa de demagogia. O desajustamento começa dentro do próprio indivíduo. Não é quem é “normal” que está errado e tem que mudar. Muitas vezes a exclusão social não é da responsabilidade da sociedade, mas de quem dela se afasta (à marginalização e auto-marginalização).
A tese muito propalada hoje em dia de que o homem é o produto do seu meio, sem mais nem menos, não é de todo verdadeira. A desculpabilização permanente não é bíblica. Tudo isto é também fruto de uma sociedade onde só se faz apelos a direitos e onde raramente se consideram os deveres.
É discutível a reivindicação que pretende impor à sociedade o investimento de milhões de escudos, para diminuir os riscos de comportamentos que se querem manter e justificar. É preciso apelar para a mudança de atitudes. É preciso denunciar certas atitudes como anti-naturais e fonte de inúmeros prejuízos para quem neles está envolvido e para a sociedade. O caso seria diferente se as pessoas quisessem mudar e não conseguissem ou não houvesse ajuda para que essa mudança pudesse acontecer. É triste verificar que algumas pessoas que querem viver de certa forma que as prejudica, em vez de procurarem ajuda para mudar, levantam-se contra os que vivem de forma diferente e contra a “natureza” (ou contra Deus que criou as coisas da forma como elas são). Biblicamente, apesar de esta situação nos constranger, temos uma resposta que nos permite compreender e partir para uma ajuda concreta, aceitem ou não essas pessoas a intervenção de Jesus Cristo para uma mudança imediata e gradual (novo nascimento e santificação).
A MISSÃO DA IGREJA
A prioridade das prioridades da igreja é a apresentação de Jesus Cristo como Salvador e Senhor a todos os que, cansados e oprimidos, querem mudar de vida. E depois de aceitarem Jesus, expor e explicar biblicamente o estilo de vida do filho de Deus no poder do Espírito Santo.
Orar e interceder diante de Deus em favor dos que mortos, cegos e presos espiritualmente, não têm sequer capacidade para compreender que se encontram nesse estado.
Não estranhar que dificilmente será compreendida por aqueles que não experimentaram a transformação do novo nascimento, não têm na Bíblia a revelação de Deus e não são morada do Espírito Santo.
TAREFAS DA IGREJA
Minorar as consequências dos que enveredam por opções que são contrárias à moral bíblica.
Apontar a solução, a saída, o poder transformador, perdoador e curador explicitados no Evangelho.
Usar todos os argumentos disponíveis para dissuadir os que estão ou podem vir a ser seduzidos e aliciados.
Aceitar as pessoas que enveredam por esses comportamentos sem julgamentos ou condenação e, acima de tudo, não esconder, num relacionamento correcto, as consequências imediatas e eternas.
Não tomar uma posição rígida sobre as várias explicações que a “ciência” procura dar para estes comportamentos. Mesmo que alguém parta do princípio que nasceu assim como um “erro” da “natureza”, para o cristão qualquer justificação é superada pelo poder de Deus.
Mostrar com paciência o quadro bíblico da criação e dos relacionamentos para os quais Deus nos criou e que batem certo com a experiência do homem hoje e no passado.
Opor-se, quaisquer que sejam as consequências, a uma publicidade gratuita desses comportamentos como se eles fossem neutros ou inócuos.
Compreender a tensão, senão mesmo o sofrimento, que estas situações provocam sem correr o risco de que a tolerância é ter que dizer e conduzir a sociedade à atitude de que tudo está bem e certo.
Criar um ambiente receptivo e estruturas adequadas para os “cansados e oprimidos”.
Denunciar com frontalidade os políticos que usam a palavra tolerância com a demagogia de quem só quer votos, e que usam os dinheiros públicos discriminadamente. A opção política individual dos cristãos no seu voto (já que a igreja não tem semelhante opção) tem que passar pela dimensão ética e moral e não apenas pelas vertentes economicistas (com promessas de benefícios pessoais).
A MARCA DO CRISTÃO
O cristão não se considera melhor do que qualquer outro ser humano qualquer que ele seja, a diferença está em Jesus que pode mudar o nosso coração. “Todos pecaram”. Ninguém pode atirar pedras em ninguém. E Jesus, que o podia fazer, não o faz porque Ele nos ama e veio para tornar possível o perdão de Deus, e não para condenar-nos. Ele diz: “Vai e não peques mais”. Também não encolhe os ombros diante do pecado. Morreu numa cruz por causa dele. Você precisa deste perdão e desta nova vida que decorre do amor de Jesus por todos nós. É possível mudar de vida. Há uma nova vida com Jesus!
Samuel R. Pinheiro
dez97
(*) Esta reflexão vem na sequência da inauguração em Lisboa de um Centro Homossexual e Lésbico, do público apoio ao mesmo por parte de figuras públicas, do financiamento de certas actividades a levar a efeito e da necessidade que existe, no meu entender, que os cristãos evangélicos reflictam sobre a atitude a tomar e a assumir no domínio privado e quando, são solicitados a pronunciar-se em debates públicos, o que tem acontecido e tenderá acontecer com mais frequência. Também para que estejamos preparados para enfrentar o ridículo que as nossas posições provocam nos que não têm a mesma experiência e convicções que temos.