ZOE- Escola de Teologia e Educação Cristã
Curso de Teologia e Educação Cristã
Professora Lídia Ferreira
OS PAIS E A EDUCAÇÃO SEXUAL DOS FILHOS
Aluno: Hélia Pereira
Disciplina: Educação Cristã
LISBOA
Novembro 2000
Índice
Introdução
Histórias da vida real
A necessidade da educação sexual infantil
O comportamento sexual da criança
A curiosidade sexual da criança
Como e quando responder?
Quem deve falar à criança: o pai ou a mãe?
O perigo dos que não falam
Crianças que não fazem perguntas sobre sexo
Conclusão
Bibliografia
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Introdução
As perguntas de uma criança sobre sexo são apenas um aspecto da sua necessidade de aprender e de se situar no mundo que a rodeia. Se possível, os pais devem responder a estas perguntas com simplicidade e verdade, à medida que vão surgindo, tal como o fazem relativamente a qualquer outro assunto.
Há que evitar a tentação de informar demais, pois geralmente quando a criança quer saber mais pergunta. Também é desaconselhavel adiar a resposta a uma pergunta, por embaraço, pois essa atitude levará a criança a pensar que o seu interesse natural é, na realidade, mera curiosidade por um assunto tabu.
De facto educar é uma arte e como tal tem que ser aprendida à medida que se vai educando. Mas todo o educador deve preparar-se e interessar-se pela arte de bem educar e desde que se queira aprender existem muitos livros de orientação nessa área. Porém, comunicar sobre sexo com os filhos é tão simples como delicado, na medida em que nunca se sabe como, quando e de que forma surgem as questões e por vezes os pais são apanhados de surpresa e desprevenidos. Daí a necessidade de uma contínua preparação para quando chegar a hora o assunto possa ser abordado o mais natural possível. Ao educar um filho os pais têm que se consciencializar de que a educação sexual faz parte da aprendizagem da criança.
Com este trabalho, devidamente integrado na disciplina de Educação Cristã ,leccionada pela professora Lídia Ferreira, é meu objectivo abordar a comunicação entre pais e filhos sobre sexo. Um assunto outrora tabu mas, que nos dias de hoje ainda acarreta alguns preconceitos. Contudo, como educadores cristãos temos um papel extremamente importante a desempenhar, no que diz respeito à formação, informação e esclarecimento de dúvidas e ou preconceitos neste âmbito. Para tal é necessário estarmos devidamente atentos para as realidades dos nossos dias e corrermos para a educação de e com valores.
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Histórias da vida real...
Em Hollywood passou pelas salas de cinema uma comédia “Bus Stop”, a qual evidenciava o talento e os atractivos da famosa actriz americana Marylin Monroe e convidava a meditar nos inconvenientes de certos métodos de educação sexual.
O herói era um jovem cowboy de 20 anos, que desde tenra idade vivia para ser o mais forte, o mais ágil e para triunfar no “rodeo”. Quando finalmente a sua preparação atingiu a perfeição, desceu à cidade para enfrentar os rivais e ali ficou durante 48 horas. Entretanto o seu pai incitou-o a aproveitar a ocasião para procurar esposa. Com orgulho o “velhote” recordou: Aos 5 anos atirei-te para cima de um cavalo e tiveste que aprender a montar. Aos 12 anos lancei-te na água para aprenderes, sozinho, a nadar. Hoje já é tempo de aprenderes a portar-te como um homem! “
Analisando esta “história” direi que estamos perante um atentado psicológico, pura ignorância, sem dúvida o pai daquele miúdo só podia estar a tentar mostrar um pouco de machismo, apenas mostrou falta de princípios. Porém, penso que se paramos e pensarmos um pouco, infelizmente, constatamos que existem muitas histórias deste género, não é necessário recorrer à imaginação de um argumentista, como foi o caso, para descobrimos inúmeros exemplos da mesma ingenuidade grosseira. Espero que todas as pessoas após assistirem ao filme tenham, de facto, meditado nos inconvenientes de certos métodos de educação sexual.
Certo pai, aquando o 18º aniversário do seu filho mais velho e lembrando-se do seu papel de educador, decidiu ter uma séria conversa do estilo homem para homem. Depois de interrogar o filho com uma franqueza de fazer corar qualquer um e ao saber que o filho ainda estava virgem, a sua única reacção e solução imediata foi encarrega-lo de remediar rapidamente aquela “lacuna”, isto para evitar os “maus hábitos”. Perante situações como esta, pergunto a mim mesma qual é o meu papel no meio de famílias que de forma incrivelmente inconsciente aliciam os seus educandos a tomarem atitudes marcantes para o resto da vida?
Sem duvida, poucos são os rapazes e raparigas que recebem directamente dos pais os primeiros rudimentos de educação sexual. Uma coisa é certa, se não lhes for ensinado em casa terão que aprender, de qualquer forma, até porque lhes são apresentadas revistas, filmes, anúncios que de formas tão subtis os incentivam à descoberta e logo mais aprenderão, infelizmente, da forma menos correcta.
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Na mundo evangélico, infelizmente, existem preconceitos nesta matéria que necessitamos combater, na medida em que as nossas crianças, adolescentes e jovens são iguais aos demais, têm as mesmas características e estão sujeitos aos mesmos perigos. Ainda que os pais queiram ser severos, não podem proibir os filhos, ainda que dóceis, de até a caminho da escola, lançarem uma olhadela pelos jornais, revistas ou mesmo para um simples anuncio. Ainda que pretendam isolar-se do contágio do “mundo”, fechando-se nos seus lares, não podem de maneira alguma exercer tal vigilância na escola, nem censurar as conversas dos recreios. Não ignoremos a realidade mas tomemos consciência dela. Como educadores cristãos devemos sensibilizar todos os pais para a importância da educação sexual pois ela é essencial e urgente para que as crianças, adolescentes ou jovens não destruam nem usufruam de forma cruel, algo que é belo e foi “criado” para ser usufruído na sua essência.
Os problemas sexuais desempenham, na vida das crianças, um papel muito importante, como tal a educação não pode deixar passar estes problemas em silêncio. Contudo, consciente ou inconscientemente é deixado ao instinto e ao acaso das circunstâncias o encargo de revelar ás nossas crianças os mistérios da vida. Não podemos descartar a responsabilidade da educação sexual para as escolas e assim aliviar o papel fundamental da família neste assunto. Até porque devemos estar atentos para o tipo de ensino que é feito nas escolas, pois o objectivo da formação sexual é pura e simplesmente no âmbito da prevenção, tudo é lícito desde que usem preservativo ou outro método contraceptivo, os valores são deixados à margem.
Um médico de uma determinada escola ao descobrir que uma aluna de catorze anos estava grávida, ouviu da boca da própria adolescente, que de modo algum se mostrou emocionada ou preocupada com a situação: “Estive com uns rapazes numa festa e a minha mãe soube de tudo o que aconteceu. Não me bateu. Apenas me disse que aprendi a viver.” Que história impressionante. Mas será que não existem semelhantes bem pertinho de nós?
Facilmente nos apercebemos que para uns a educação sexual é maltratada, as experiências sexuais são de certa forma encorajadas, sem a mínima decência; para outros a educação sexual é de tal forma “estúpida” e rude que ordenam forçosamente uma “pureza” que mais se assemelha a uma verdadeira castração. A educação não deve ser exercida de uma forma rígida, bruta ou simplesmente por descargo de consciência mas deve ser esclarecedora, tudo deve ser claro e explícito para que a criança compreenda. Não é suficiente transmitir que sexo antes do casamento é pecado, é necessário explicar e muito bem o porquê.
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Para tratarmos este assunto de uma forma mais eficaz convém conhecermos todas as condições, preconceitos, mentalidades dos educadores contemporâneos, pois ajudar-nos-à na preparação e resolução deste tipo de educação face aos tabus ainda existentes.
Foram as descobertas revolucionárias que, desde o final do século XIX, vieram alterar o conhecimento do homem e têm permitido a compreensão das razões das muitas lacunas existentes nesta área. E ao examinarmos ajudar-nos-à a descobrir os elementos indispensáveis para definir os métodos de educação sexual e assim esforçar-nos-emos positivamente na orientação sexual das crianças.
Mais um caso curioso passado numa pequena aldeia. Certa manhã, um agricultor encontrou a sua horta devastada, todos os olhos das couves estavam destruídos e muitos pés desenterrados, então dirigiu-se á esquadra de polícia mais próxima para apresentar queixa, pedindo a prisão do possível autor dos distúrbios. Entretanto soube-se na aldeia que o acontecido não se tratara de um acto de vandalismo, mas de pura e ingénua curiosidade de um grupo de crianças que ao levarem à letra a antiga lenda que diz que os bebés nascem nas couves, decidiram confirmar com os seus próprios olhos. É caso para dizer “são crianças...” O facto é que temos muito que aprender, para podermos ensinar convenientemente as nossas crianças. Os contos, as fábulas ou lendas não constituem nos dias de hoje formas de ensino para este assunto tão bonito como a natureza e tão delicado como uma flor.
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A necessidade da educação sexual infantil...
O problema da educação sexual está directamente ligado à educação da afectividade. É um erro considerá-la um campo particular, como se sexualidade e sensibilidade fossem distintas. Os progressos das ciências psicológicas têm demostrado a importância da afectividade na vida sexual e da sexualidade em toda a nossa vida.
É igualmente um erro crer que a sexualidade começa com a puberdade. Antigamente todo o vocábulo sexual era proibido, “baixo” e vergonhoso, impróprio para empregar perante as crianças. Eram usadas expressões deste género: “não é conversa de criança”, “as crianças não se têm que interessar por esses assuntos...”, “verdades” que se mostraram falsas e perigosas, porque, de facto, a sexualidade não surge bruscamente, é preparada por uma evolução e uma lenta maturação.
É perigoso desprezar este assunto, pois irá determinar e orientar, pela vida fora, a questão sexual e afectiva. É necessário que todos os pais se preocupem desde cedo, com a educação sexual, a qual tomará diferentes formas consoante as idades e os interesses.
A intervenção dos pais no campo da educação sexual, frequentemente, consiste em defender, limitar, impedir, ameaçar a criança ou o adolescente sobre tudo o que diz respeito à sexualidade. Pelo contrário, deve-se auxiliar a formação progressiva da sexualidade e permitir, sem forçar, a maturação. Isto significa que se deve manter a criança em boas e sãs condições que favoreçam o seu desenvolvimento total.
As grandes dificuldades apresentadas pelos ensinadores prendem-se com o facto da maior parte não ter recebido a verdadeira educação sexual. Compreende-se perfeitamente, que seja impossível mostrar a uma criança que o campo sexual é natural e normal se o próprio educador não ultrapassar os preconceitos existentes. Todos os pais devem educar-se antes de educarem os filhos.
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O comportamento sexual da criança...
Todo e qualquer educador deve ajudar a vida instintiva da criança e adaptar-se às exigências da vida social e moral, tendo em conta os seus princípios como cristão. Essa socialização da criança deve facilitar a maturação e o equilíbrio das suas forças em potência para que se desenvolvam e ela venha a ser um adulto são, normal, como deve ser.
A sexualidade da criança, para ser educada, não deve ser esmagada, mas orientada, dirigida, cultivada até ao seu desabrochar.
Existem três fases no desenvolvimento da sexualidade da criança, definidas por psicanalistas, a fase oral, a fase anal e fase genital e que são actualmente admitidas, as quais quero recordar resumidamente
· Fase Oral ( os, oris = boca)
Para uma criança pequena, todo o prazer do mundo exterior é adquirido pela boca: a mama, a chucha, tudo o que apanha coloca na boca. Com isso não satisfaz unicamente a necessidade fundamental de comer, sente igualmente um certo prazer que representa antecipadamente aquele que o beijo provocará. Isto compreende-se tanto mais quanto o recém-nascido se encontra ainda num estado orgânico muito pouco diferenciado, centralizado á volta do tubo digestivo que lhe dá prazer e subsistência.
Surgem então as primeiras exigências sociais, a chamada “disciplina social” que entra precisamente nesta fase primitiva com a regulamentação do regime da sua vida alimentar. A regularização das mamadas, agora mais liberal que há uns anos atrás, é indirectamente uma regulação do prazer “oral”, sexual, primário da criança.
Essa regulamentação foi durante muito tempo de uma verdadeira e rigorosa disciplina. Sabe-se que haviam mães que passavam noites inteiras sem poderem dormir ao lado dos bebés que, choravam de fome porque “não se devia dar nada à criança durante a noite”. Com o passar dos anos esse rigor foi posto de lado.
Segundo o Dr. André H. Berge, director do Centro Psico-pedagógico da Academia de Paris, foi efectuado um estudo em que se compararam dois métodos de educação: um bebé chorou de noite durante um mês, sem deixar dormir os pais; ao fim de um mês, estava “educado” e as noites passaram a ser tranquilas; outro bebé bebia um pouco de água com açúcar, duas a três vezes durante a noite, conforme acordava: os pais dormiam tranquilos, o filho também, ao fim de um mês a criança estava “adaptada” e dormia as noites inteiras.
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O resultado deste estudo é evidentemente o mesmo, mas pode dizer-se que o segundo método é psicologicamente mais económico: evita que a criança experimente um sentimento de angústia e de fome.
Falando um pouco no desmamar, a criança sente um prazer sensual e sentimental em mamar, como tal, o desmamar é uma verdadeira prova psicológica. O desmamar muito prematuro é lamentável, mas o desmamar tardio é também muito perigoso quando a criança tem consciência do duplo laço que a liga à mãe. O perigo maior é o do desmamar “demasiado brutal”, em que se pede à criança que renuncie ao seio materno, que lhe dá ao mesmo tempo a vida e a ternura necessárias.
· Fase anal ( ânus)
Esta fase, segundo os psicólogos, também pode ser chamada de “pré-sexualidade”, pelo facto de ser a idade da educação dos esfíncteres e a fase em que a sensibilidade da criança dá um valor afectivo à defecação. Isto porque o bacio é o grande centro de interesse: a mãe admira, elogia, felicita, sanciona,, etc. A criança dá, pois, certo valor ao que para ela e para a mãe se torna um indício de obediência e de afecto. Sacrifica ao amor da mãe as comodidades de um hábito instintivo e puramente natural, dobrando-se à utilização de um objecto especial, mais ou menos agradável e ao respeito de um horário fixo. Esta fase e porque se trata de uma fase de sensibilidade a criança necessita muito do amor da mãe. Assim, nesta fase não se deve “impor” à criança, cedo de mais, o controle dos esfíncteres, pois requer um amadurecimento psicológico e afectivo e sobretudo não “impor” por constrangimento moral, envergonhando-a, ralhando, castigando, pois esses meios repressivos podem transformar uma prova que deve ser o exercício de êxito e ternura numa experiência fracassada.
A disciplina dos esfíncteres estimula, de facto, uma terceira fase do desenvolvimento sexual da criança, localizando um prazer especial, ao mesmo tempo fisiológico e afectivo e tornando-o o indício de uma função corporal; a partir daí encontramo-nos na presença dos próprios caracteres do acto sexual: prazer e função. Assim, numa terceira fase, a localização desse prazer e dessa função fixa-se nos orgãos genitais.
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· Fase Genital
Se o desmamar, primeiro constrangimento social agindo sobre um prazer corporal, e a higiene, segundo constrangimento social da vida infantil, correram bem e tiveram lugar numa atmosfera de amor, a criança chega à fase de verdadeira sexualidade nas melhores condições e com as melhores possibilidades de equilíbrio.
Seja qual for o comportamento da criança para com os seus orgãos genitais, não é o gesto da criança que é perigoso, mas a intervenção do adulto a propósito desse gesto, por chamar para ele a atenção da criança, que poderá assim “fixá-lo” e torná-lo um hábito tirânico e por dar um valor moral – “não está bem” – ao que na criança era inconsciente e puramente instintivo: uma vez mais, a criança não pode compreender de repente a moral sexual dos adultos..
De facto, existe uma idade em que é normal a criança mexer nos seus orgãos sexuais: explora o corpo com as mãos e toma conhecimento, com a mesma curiosidade e a mesma necessidade, de todos os seus orgãos. Porém não tem consciência do seu eu físico, de partes sexuais, inferiores, proibidas.
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A curiosidade sexual da criança...
Será que se deve satisfazer a curiosidade sexual de uma criança?
Esta é uma questão colocada por muitos pais. Parecendo simples torna-se complicada na medida em que tem sido difícil dar-lhe resposta. Psicólogos, psicopedagogos, psiquiatras, psicanalistas têm feito grandes esforços para mostrarem o quanto a resposta a esta questão é necessária para a formação sexual e também o quanto a ausência de resposta pode ser perigosa e perturbadora.
Vejamos o que poderá acontecer a uma criança quando se recusa a resposta:
· CULPABILIDADE
A criança pensa: “É feio...” experimenta um sentimento de culpabilidade, ou seja, abstém-se de qualquer curiosidade nesse campo, assim como, inconscientemente, poderá acontecer noutro campo do saber. Infelizmente, são descobertos frequentemente bloqueios intelectuais no campo da curiosidade sexual, em consequência da recusa dos pais em responder a perguntas sobre sexo.
Por lhe terem feito sentir “vergonha” a propósito dessas perguntas, a criança pode igualmente reagir com um comportamento de recusa sexual, ou seja recusa da realidade do sexo, tal como aconteceu a um menino de doze anos que assistiu ao banho de uma priminha sem ter visto realmente a diferença do sexo.
· DESCONFIANÇA PERANTE OS PAIS
A criança também pode pensar: “não se pode falar disso aos pais...” e assim sente vontade de ir buscar resposta a outro lado. Obviamente que trará os seus perigos, mas o que lhe interessa é satisfazer a curiosidade.
A falsidade é facilmente descoberta pelas crianças, como tal os pais não pensem em responder coisas falsas, pois facilmente as crianças perderão a confiança ao verificarem que “com as coisas sérias os pais não foram sérios”.
As crianças procurarão as respostas necessárias nos colegas ou noutros adultos ou então optam por, sozinhas, arquitectar teorias pessoais para explicarem de maneira satisfatória, frequentemente assustadora, os mistérios da reprodução, do nascimento... Como tal é importante dar-lhes respostas.
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Como e quando responder?...
Perante tudo o que foi dito coloca-se a questão: Mas como e quando se deve responder à curiosidade sexual das crianças?
Pois bem, é necessário responder às perguntas quando a criança as faz e consoante o que pergunta precisamente. Não se deve ir além da curiosidade da criança, devemo-nos preocupar em dizer apenas a verdade. Não existe tempo nem data precisa para responder, deve-se deixar a criança livre para fazer perguntas e responder-lhe quando as faz e nos limites em que as faz. A maneira mais segura de dar a uma criança explicações sexuais é deixar que ela própria conduza a sua curiosidade. Ou seja, o mais importante é que os pais compreendam os filhos, saibam aquilo de que ele necessita e proporcionarem-lho no momento necessário. De facto não existe idade fixada antecipadamente para abordar este assunto, tudo depende da evolução sentimental da criança e das circunstâncias exteriores, do meio em que vive.
Existe outro factor embaraçador para os pais, que se prende com a forma de responder às questões colocadas pela criança. Ou seja o tipo de vocábulos, de expressões a empregar, isto porque ainda existe algum constrangimento relativamente a este assunto. Neste caso, também deve deixar-se a criança dirigir livremente a sua curiosidade. É interessante podermos constatar que a ordem das perguntas é quase sempre a mesma, vejamos:
· A pergunta sobre a diferença entre rapazes e raparigas é pouco frequente e geralmente é resolvida sem a intervenção dos pais. Isto sucede deste modo particularmente nas famílias numerosas em que se encontram representados os dois sexos: a casa de banho em comum, o vestir em comum resolvem a questão sem chegarem a fazer perguntas. O que se torna mais difícil nas famílias representadas por um só sexo.
· De onde vêm os bebés? Esta é, sem dúvida, a primeira pergunta a ser feita, “as origens da vida”. A resposta a esta questão deve ser feita de acordo com a realidade, a verdade. Se lhe for dito gentilmente que “os bebés vêm do coração das mães”, a criança que sabe o que é um coração vai imaginar, com horror, a saída do bebé do “coração da mãe”. Qualquer criança fica desiludida quando não lhe é dada resposta. Responder muito simplesmente dizendo-lhe o que deseja saber: os pais podem fabricar, criar um menino. Muitas crianças ouvem das avós que os bebés nascem nas couves, nas flores, são trazidas por cegonhas, nascem de uma sementinha... Será conveniente desfazer gentilmente todas essas lendas. 12 A explicação: “um pai e uma mãe, juntos, podem fazer um menino...” será uma das primeiras a ser dada e ocasionará outras. Ao responder de forma simples e tranquila ficaremos admirados com a simplicidade e ausência de constrangimento com que a criança aceita o que lhe foi dito.
· Como nascem os bebés? É por ordem lógica a Segunda pergunta feita pelas crianças. Neste caso, também não se deve criar mistérios na cabeça das crianças, se lhe for dito que as coisas acontecem numa clínica em que o doutor faz uma operação... solta a imaginação da criança que automaticamente imagina a barriga aberta, sangue e que mete muito medo. É bom dizer-lhes que passam por um caminho especial e é por isso que as raparigas não são iguais aos rapazes.
· Como se formam os bebés? Os pais não devem fazer cerimónia para falarem naturalmente destas coisas. Devem mostrar à criança a origem e processo das coisas. Se lhe disserem: “chiu, não se fala dessas coisas”, apenas transmitem a vontade que têm de não lhe responder.
· Papel do pai e da mãe. A criança deve saber que para dar vida é necessário um pai e uma mãe; é necessário mostrar que o pai também tem um papel importante na criação da vida.
· O amor. É de importância primordial explicar que a aproximação do homem e da mulher, acto criador, é um impulso de amor, carinho e ternura e ao mesmo tempo um prazer de que participam o corpo, a alma e o espírito, deve mostrar-se à criança que tudo é fruto de uma união total.
· A verdade e a verdade científica. Toda a explicação e como já mencionei deve ser verdadeira. Pois, sendo o adulto tão sensível ás mentiras infantis, deve esforçar-se por lhe dizer frequentemente a verdade. Os pais deve, porém, evitar dar explicações demasiado elevadas que a criança não compreenda. Explicações pormenorizadas ser-lhe-ão dadas á medida que se vai desenvolvendo.
Tudo o que deve ser dito às crianças tem que ser simples e exacto. Relativamente à gravidez e nascimento, deve dizer-se primeiro que a criança se forma na barriga da mãe. Explicando que todas as mulheres têm um lugarzinho, uma bolsinha, feita para conter um bebé; que este é, no inicio, como um ovo sem casca e ainda muito mais pequeno; que cresce a pouco e pouco e que ao mesmo tempo a barriga vai crescendo. É nessa bolsa que o bebé se forma, cresce, é alimentado pela mãe e está muito quentinho. Até que chega, finalmente, um dia em que o bebé já está suficientemente forte
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e quer viver fora da barriga da mãe. Então nasce e logo respira, chora e sabe mamar. Por outro lado, é importante realçar o papel do pai, que deve ser indicado com simplicidade: a mãe não pode, sozinha, “fabricar” um bebé, ela apenas tem uma parte da semente, então precisa da outra parte que é o pai que pode dar. É através da união do pai e da mãe e de muito amor que as duas meias sementes se unem e formam o pequeno ovo na barriga da mãe. Desta forma carinhosa, a criança sentirá que a concepção deve ser o resultado de um grande amor.
Quando a criança atinge os onze, doze ou treze anos de idade, nomeadamente se for menina, deve ser posta ao corrente dos fenómenos da formação. Dizer-lhe que não se inquiete ao ver os seus seios crescerem, pois é o primeiro indício de que se está a tornar mulher, que não se aflija ao ver aparecerem pêlos nos sovacos ou na região púbica. Explicar-lhe o que é a menstruação.
Quanto aos meninos, eles “formam-se” um pouco mais tarde que as meninas. Mas devem ser prevenidos para o aparecimento de pêlos axilares e da região púbica. Mostrar-lhe ao mesmo tempo como cresceu, como se desenvolveu, a mudança que pode ocorrer na voz, as alterações a que está sujeito para se tornar um homem.
Todos os pais devem empenhar-se na educação sexual dos filhos e não deixar essa responsabilidade ao seu próprio cuidado, ou ao cuidado da escola.
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Quem deve falar à criança: o pai ou a mãe?
Normalmente os pais encarregam as mães para tudo quanto são explicações. Porém a criança tem um pai e uma mãe, ambos têm um papel fundamental na educação dos filhos. Mas, quando a criança é muito pequena, a mãe, que mais se ocupa dela, é quem mais frequentemente observa o seu comportamento e presta atenção às suas perguntas. Quando surge o momento de ensinar o que deve saber sobre sexo e aqui quero salientar a importância e o acompanhamento da Palavra de Deus para todas as explicações, é frequente os rapazes procurarem o pai e as meninas a mãe, mas poderá não suceder deste modo, poderão tanto rapaz como rapariga procurarem a mãe para a formação sexual. Neste sentido penso que o ambiente familiar é extremamente importante e é um factor de grande peso para a abordagem deste assunto. Pois, frequentemente a criança faz perguntas, diante dos pais reunidos e um ou outro poderá e deverá responder-lhe e a ausência de constrangimento porá a criança à vontade.
Tanto a mãe como o pai devem saber responder com toda a integridade às necessidades que a criança tem de saber quem é, de onde veio, como veio. É extremamente importante que a criança seja instruída pelos pais antes de ter conhecimento através dos colegas ou das revistas. Como educadores cristãos não devemos aliviar a consciência pelo facto das crianças terem educação sexual na escola, a primeira de muitas aulas de educação sexual é da responsabilidade dos pais.
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O perigo dos que não falam...
Todas as crianças são curiosas. Muito pequeninos são uns “mexe tudo”, agarram os objectos, observam e provam-os. É assim que se inicia a instrução de uma criança. Como tal, deve-se ajudar a criança nessa primeira exploração do mundo, pondo ao seu alcance objectos que não prejudiquem e indicando-lhe o nome de tudo o que vê.
Mais tarde começa a fazer perguntas: “Porquê? Como? Para quê?”, às quais se deve responder e explicar. As crianças sentem-se felizes ao saberem que os pais se interessam pelas suas perguntas e que lhe sabem responder. Mas, por vezes surgem perguntas difíceis de responder, não tanto pela sua forma, mas porque julgamos que a criança é muito nova para entender a explicação. Porém, nunca se deve ralhar pelas suas múltiplas perguntas, não responder ou mentir será indigno. Respostas simples e directas, a um nível que a criança compreenda, sem contudo enganá-la, é a melhor forma de responder às suas inúmeras questões.
Será sensivelmente a partir dos três anos que surgirão as curiosidades e entre os vários temas que surgem, a temática sexual está presente. Surgindo assim as perguntas embaraçosas, às quais os pais devem sentir-se perfeitamente à vontade para responder. Quando surgir a pergunta: “ De onde vêm os bebés?”, os pais nunca devem hesitar ou adiar a explicação. Responder de forma simples dizendo-lhe o que pretende saber: os pais podem “fabricar”, “criar” um bebé. Muitas crianças ouvem dizer que nasceram nas couves, nas flores, que foram compradas num armazém, foram trazidas por uma cegonha, foi uma sementinha... Todas estas lendas devem ser, gentilmente, desfeitas.
Se os pais ficarem indiferentes às perguntas colocadas pela criança, ou se calarem perante uma dúvida, poderão provocar graves perigos. Vejamos, então, alguns desses perigos:
· Desilude a criança, ela perderá uma parte da sua confiança
Esta desilusão criará uma barreira entre a criança e os pais. Existe um facto real que serve de exemplo para este ponto: uma adolescente de 14 anos comentou: “A minha mãe sempre me desiludiu. Tenho tudo o que preciso, mima-me muito, mas no entanto, não posso falar com ela. Quando era pequena, fiz-lhe algumas perguntas as quais recusou responder, porque era feio falar daquelas coisas. Depois nunca pude falar com ela livremente. Agora somos como duas estranhas.”
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Esta adolescente fechou-se em si mesma e o ambiente em casa tornou-se muito difícil, ao ponto de a internarem num colégio. Sentiu tal impressão de abandono e rejeição que lhe foi impossível prosseguir os estudos.
· Dá lugar à invenção mais fantasista
Perante a questão colocada a criança tenta imaginar a resposta, uma vez ignorada pelos pais. Aí torna-se sonhadora, inquieta, instável, muitas vezes até perde rendimento escolar.
· Possibilita a informação errada
Se os pais não responderem a criança poderá ser informada e muitas vezes mal informada e de uma forma mais ou menos grosseira, por colegas ou através de livros, revistas, filmes ou vídeos, na maioria mal adaptados às suas necessidades e à sua idade, consultados às escondidas.
Se todos os pais tivessem o mínimo de conhecimento no que diz respeito à educação sexual dos filhos, seria muito fácil evitar estes erros que, uma vez cometidos levam a criança a conservar a impressão de que são coisas vergonhosas e sujas ou então leva-as a partir para a experiência prática. E assim a estima que tem pelos pais e por si própria diminuirá e em adulto poderá tornar-se vítima de escrúpulos excessivos, de impotência ou obsessão.
Porém existem muitas duvidas quanto à idade com que se deve instruir a criança, se deve fazer-se de uma vez só ou mais. Neste sentido, penso que o mais importante é os pais compreenderem o filho, saber aquilo de que necessita e proporcionar-lho no momento necessário. Mediante o que pesquisei, para a elaboração deste trabalho, concluo que não existe uma idade a fixar antecipadamente, dependerá da evolução sentimental da criança e das circunstâncias exteriores, do meio em que vive, do ambiente familiar. Como tal, não se devem fixar datas mas, sobretudo acompanhar a criança, corresponder às suas necessidades evitando perturbá-la. Responder-lhe sempre que faça perguntas, não iludi-la, não adiar a explicação para mais tarde mas responder sem ao que pergunta.
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Crianças que não fazem perguntas sobre sexo...
A ausência de questões sobre sexo não conclui que a criança não tenha preocupações sexuais, ou que essas coisas “não lhe interessam”, ou que é uma criança extremamente pura que não pensa nessas coisas. O mais certo é ela não ousar perguntar, muitas vezes por receio, por constrangimento. Nesses casos devem ser os pais os primeiros a falar. Perguntar-lhe se quer que lhe expliquem alguma coisa, naturalmente a criança hesita, mas devem animá-la e colocarem-na à vontade. A pergunta surgirá por si, imediatamente, ou alguns dias ou semanas mais tarde.
Quando lhe falarem devem fazê-lo naturalmente, sem vergonha, pois é necessário que a criança sinta que criar a vida deve ser resultado de um grande amor.
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Conclusão
A sexualidade existe desde o nascimento e prolonga-se até ao fim da vida do ser humano. Contudo, apesar de toda a importância que tem ao longo da vida, é um tema que ainda suscita alguns tabus.
Poucas são as vezes que os adultos, sejam pais ou outros educadores, conversam com as crianças sobre sexualidade. Existe um grande numero de pais que estão perfeitamente conscientes da importância da educação sexual como parte integrante de uma boa educação. Porém, sentem-se com dificuldades e inseguros para abordar este assunto. Para muitos o facto de não terem tido este modelo na sua infância, fá-los sentir esta função parental como nova e por isso muito difícil de enfrentar. A opção tomada por muitos pais é o silêncio, que é uma outra forma de abordar o tema.
Os pais têm um papel extremamente importante e fundamental na educação dos filhos e não devem abdicar de um assunto tão sério como este. Muitos dos problemas relacionados com a vivência da sexualidade são originados pela falta de informação. Apesar de existirem muitas fontes de informação relativamente a este assunto, o papel dos pais é distinto dada a tonalidade emocional e afectiva que a acompanha.
De facto, este assunto ainda acarreta alguns preconceitos e muita falta de conhecimento, o que distancia os pais dos filhos ou os filhos dos pais. Porém como educadores cristãos cabe-nos estabelecer a ponte entre pais e filhos para que a educação das nossas crianças seja de boa qualidade.
Temos que despertar para as realidades que nos rodeiam e com alternativas lutar por uma educação completa e eficaz.
Este trabalho permitiu alargar os meus conhecimentos nesta área, assim como alertar para a importância que nós, educadores cristãos, temos no âmbito da educação de e com valores. Assim, como educadores cristãos temos um papel fundamental na construção de alicerces para a formação de famílias felizes.
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Bibliografia
A Educação da Criança, Círculo de Leitores, 1976.
BANNOT, Gerard e Lucienne, A verdade sobre a Educação Sexual, Editorial Estúdios Cor.
Falemos de Sexualidade, Associação para o Planeamento da Família.
FREINET, Celestin, Conselhos aos pais, 2ª Edição, Editorial Estampa, 1974.
GLEITMAN, Henry, Psicologia, 4ª edição, Fundação Calouste Gulbenkian, 1999.