O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa: contribuições para uma abordagem crítica
Por Isabel Rute Reinaldo*
O cinema é uma das formas artísticas mais relevantes do ambiente pós-moderno em que vivemos. Vários clássicos da literatura têm sido adaptados e reinterpretados tendo em conta os padrões estéticos e éticos contemporâneos, beneficiando da espantosa tecnologia actual. Exemplos disso são a trilogia de O Senhor dos Anéis, Charlie e a Fábrica de Chocolate e, muito recentemente, O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa.
Se compararmos esta versão cinematográfica com a versão televisiva da BBC, realizada há vários anos atrás (passou há alguns anos na RTP 2 e está editada em DVD), veremos algumas diferenças, seja a nível de efeitos especiais, caracterização das personagens e até mesmo nas opções de adaptação literária ao guião cinematográfico.
No meio de tanta enxurrada de filmes supostamente para crianças aguardávamos, com expectativa (finalmente!), a estreia desta produção Disney (lembremo-nos que chegou a ser noticiado que este projecto estaria nas mãos de Spielberg, há alguns anos atrás).
Esta obra de C. S. Lewis, autor de referência na cultura anglo-saxónica, reflecte de alguma forma a sua postura perante a vida. Durante vários anos foi um ateu convicto, acabando por encontrar a fé duma forma inesperada. Todas as suas obras, posteriormente, reflectem a sua forma de entender o cristianismo e a vivência da fé; acabam por ser uma apologia da própria fé cristã. Duma forma interessante e em linguagem acessível, mostram um Deus Vivo e Pessoal, Salvador e Redentor, que redime e transforma o nosso relacionamento com os outros e com a própria cultura.
É neste contexto, e tendo em conta o seu background académico, da literatura medieval, mítica e mística, que escreve As Crónicas de Nárnia para o universo infantil, mas cujo encanto ultrapassa as fronteiras da idade, fazendo as delícias de qualquer adulto que se sinta atraído por este tipo de literatura. Eu própria só tomei contacto com esta obra já como estudante universitária, na versão brasileira da ABU, através da biblioteca do GBU (verdadeira referência para a geração de estudantes da altura...), a qual me fascinou de imediato, tendo lido os 7 livros da colecção “de empreitada”.
Vários anos depois os meus filhos puderam ter contacto com esta obra, já no nosso português, desde muito cedo, a partir dos 4 ou 5 anos, primeiro ouvindo-a, à noite, e depois lendo-a eles próprios.
Estas têm sido obras de referência para várias gerações de crianças britânicas e mesmo americanas. Em Portugal, contrariamente, têm sido pouco divulgadas até há bem pouco tempo. Com o lançamento do filme da Disney foi realmente catapultada para o seu devido lugar.
Tal como a obra do seu contemporâneo e amigo Tolkien (autor de O Senhor dos Anéis), cuja obra também foi redescoberta devido ao êxito da versão cinematográfica, também C. S. Lewis foi agora adaptado ao cinema, depois da sua própria vida também ter sido objecto duma peça teatral, Shadowlands; esta foi posteriormente adaptada à televisão com o mesmo título e mais tarde ao cinema (teve Anthony Hopkins como protagonista e foi candidato aos Óscares).
As obras destes autores reflectem as suas referências e valores, ancorados na fé cristã. A
própria forma como os transmitem, de modo metafórico e mítico, é não só fascinante como também um terreno fértil para desenvolver a imaginação, alimentando na perfeição o universo cinematográfico.
O filme não é perfeito, tanto a nível de realização (Andrew Adamson destacou-se sobretudo no campo da animação, cujo exemplo mais fulgurante é Shrek) como de algumas opções na adaptação da obra.
Alguns puristas da obra literária, e aí posso incluir o meu filho mais velho, de 14 anos, poderão ficar decepcionados pela forma como alguns aspectos foram abordados e a inexistência de outros, mas a ênfase principal está intacta e perfeitamente acessível a quem veja o filme sem conhecer a obra.
Gostei particularmente das crianças que foram escolhidas para as quatro personagens principais: Peter, Susan, Edmund e Lucy. De certa forma, através destes quatro irmãos, as crianças que leiam ou vejam o filme podem identificar-se com algumas características de cada um deles, permitindo-lhe uma maior empatia com esta aventura no mundo de Nárnia.
Este primeiro filme de As Crónicas de Nárnia (tudo leva a crer que os outros livros da série serão adaptados para o grande écran, estando já em projecto O Príncipe Caspian) leva-nos ao mundo fantástico e imaginário de C. S. Lewis e abre-nos a porta (do Guarda-Roupa?) de um outro universo e de um outro tempo. Duma forma lúdica e encantatória, C. S. Lewis recria a história mais espantosa de sempre – de Alguém completamente Inocente que deu a Sua Vida por Alguém inexoravelmente Culpado.
Na minha perspectiva não devemos, no entanto, fazer leituras lineares e redutoras desta obra fantástica. O próprio C. S. Lewis nunca pretendeu que as suas obras fossem vistas como alegóricas; aliás, como o próprio Tolkien relativamente a O Senhor dos Anéis. Desse modo é sempre possível uma diversidade de leituras. Por vezes, pode ser perigoso interpretar determinada personagem atribuindo-lhe um significado ou correspondência bíblica pois o que estes autores pretendem é transmitir valores, atitudes e uma cosmovisão centrada em princípios bíblicos e cristãos mas não analógica ou alegórica.
Estes autores bebem a sua inspiração nos mitos e lendas da cultura anglo-saxónica, repleta de faunos e outras criaturas fantásticas, tornando as suas obras num exemplo de contextualização do seu ambiente cultural.
De qualquer modo, em As Crónicas de Nárnia e especificamente em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa é muito evidente o simbolismo de algumas personagens e algumas situações, nomeadamente o Leão Aslam (1) e o seu combate e vitória com a Feiticeira Branca (2), o Sacrifício do Leão na Mesa de Pedra (3), o contraste entre o Inverno, reinado da Feiticeira e a Primavera trazida pelo Leão, símbolo do renascimento da Vida (4).
Deleitemo-nos, pois, com o mundo riquíssimo que C. S. Lewis inventa, para gáudio da nossa imaginação, e aproveitemos a diversidade da obra para nos questionarmos de que forma ela se liga à nossa própria vida.
Análise e discussão do filme
Um filme, além de ser uma expressão artística, é também uma forma de comunicação – há ideias, sentimentos ou valores que, de uma maneira ou de outra, estão presentes no comportamento das várias personagens, nos diálogos ou mesmo visual e musicalmente.
Este filme pode ser um bom pretexto para ajudar as nossas crianças e adolescentes (e mesmo jovens e adultos) a discutir e a questionar o que vêem duma forma saudável e crítica, relacionando-o com a realidade que vivem.
Não pretendendo elaborar algo muito técnico e exaustivo, tento dar alguns exemplos,
havendo, naturalmente, muitas outras áreas que poderão ser exploradas. Não é um estudo bíblico, embora os líderes possam orientar a discussão fazendo pontes com algumas passagens bíblicas (5).
Será uma boa oportunidade aproveitar a edição em DVD para ver ou rever o filme e conversar sobre ele em família, na igreja ou nas aulas de Educação Moral e Religiosa Evangélica.
Exemplos para um Guia de Discussão em Grupo
A. Perguntas introdutórias
– Gostaste do filme? Sim ou não? Porquê?
– O que apreciaste mais? E o que apreciaste menos? (Peça razões.)
– Qual a personagem com que te identificas mais? Porquê?
– Qual o momento mais marcante do filme?
B. Perguntas exploratórias
– Há um herói principal ou vários? Quem são e porquê?
– Qual a sua atitude perante a vida humana? Dá-lhe valor? Onde se expressa isso?
– De que forma é o amor visto pelas várias personagens?
– Qual a atitude do(s) herói(s) perante o mal?
– Qual o destino do(s) herói(s)?
– O final do filme é perceptível? É evidente para todos ou dá lugar a várias interpretações?
– O Mal é castigado claramente ou o seu fim é duvidoso?
– Se tivesses que dizer a um colega teu qual a mensagem principal do filme, o que é que dirias?
Nota: As perguntas destes 2 grupos são aplicáveis a qualquer filme para crianças, jovens ou adultos.
C. Perguntas de aplicação
– Escolhe uma característica positiva e uma negativa das quatro personagens principais, Peter, Susan, Edmund e Lucy. Com qual te identificas mais?
– Quais as qualidades que mais destacas no Sr. Tumnus, o Fauno? E no Casal de Castores?
– Refere as qualidades que mais te impressionam em Aslam, o Leão.
– Com quem o poderias identificar? Porquê?
– Quais as características da Feiticeira Branca? O que levou a Feiticeira a transformar Nárnia num reino onde era sempre Inverno e nunca era Natal?
– Geralmente identificamos o Mal com cores escuras; porque é que achas que o autor escolheu o branco neste caso? (Feiticeira Branca, Inverno com Neve)
– Porque é que achas que um dos sinais do regresso de Aslam era o fim do Inverno e o início da Primavera? Faz-te lembrar algum contraste apresentado na Bíblia? (6)
– Uma das personagens marcantes da história é Edmund, que atraído pelas Delícias Turcas acabou por trair os próprios irmãos. Que erros consegues apontar em Edmund? Pensa em erros que tenhas cometido. De que forma isso te põe numa situação idêntica à de Edmund, de culpado? (7)
– Lembras-te quando Aslam aparece pela primeira vez? O que sentiste? Que imagem é que ele te transmite?
– A Feiticeira Branca vem reclamar Edmund para si – para o condenar à morte. Relembra a Aslam a Magia Profunda, pela qual um traidor deve ser morto. Qual a atitude de Aslam?
– Que sacrifício poderia anular o castigo de Edmund?
– Como é que achas que Edmund se sentiu perante a atitude de Aslam? E tu como te sentirias?
– O que mais te impressionou na cena passada na Mesa de Pedra? O que te faz lembrar? Consegues relacioná-la com algum facto descrito na Bíblia? Qual e porquê?
– Imagina que estavas no lugar de Lucy, observando toda a cena. Como a descreverias a um colega teu?
– O que é que a Feiticeira Branca não sabia acerca da Magia Profunda? O que significava a Magia Mais Profunda e anterior à Aurora dos Tempos?
– Aslam, sendo inocente, tomou o lugar de Edmund, demonstrando um amor sacrificial e dando a possibilidade a Edmund de ser perdoado. Através deste Amor, Aslam venceu a própria morte. As meninas ficaram impressionadas com o poder de Aslam sobre a própria morte. Que facto bíblico podes relacionar com este episódio? (8)
– Quem é que tu conheces com este poder? Como explicarias este facto aos teus colegas?
Notas:
(1) Apocalipse 5:5
(2) João 13:31
(3) Isaías 53:7; Mateus 27:31
(4) João 8:12
(5) Sugiro vivamente a leitura do opúsculo editado pela Sociedade Bíblica – A Verdadeira Mesa de Pedra.
(6) João 1:3-5,9
(7) Romanos 3:23
(8) Marcos 16:6; Marcos 28:5,6
Todas as referências bíblicas foram tiradas da Bíblia Sagrada, Trad. João Ferreira de Almeida, Versão Contemporânea, Ed. Vida.
* Licenciada em Filosofia, mãe de seis filhos, professora no Seminário Teológico Baptista e de Educação Moral e Religiosa Evangélica na EB1 de Linda-a-Velha.
isabel.reinaldo@clix.pt