A Fantasia de C. S. Lewis
Por Tiago Branco*
Não sabes que a opinião acertada sem conveniente justificação não é sabedoria – pois como poderia uma coisa ser sabedoria se não sabemos fundamentá-la? E também não é ignorância, porque o que atinge a verdade não pode ser ignorância?
Platão, O Banquete
Inspirei-me muitas vezes no rigor, e na clareza persistente, com que C. S. Lewis sistematizava e explicava, nas suas obras apologéticas, as verdades do Reino de Deus. Munido de um estilo ameno de humor fino, apresentava os fundamentos da fé cristã, que abraçou a partir de uma experiência estética, com um pensamento claro, profundo e estruturado.
Nas suas Crónicas de Nárnia não há, contudo, lugar para fundamentos da verdade. Em Nárnia, brilha apenas a magia da história e dos seus personagens. Em criança, longos haviam sido os dias que Lewis passara num sótão, apenas na companhia de heróis de histórias fantásticas que criaram em si um fascínio por novos reinos e libertadoras aventuras. Com eles aprendeu o valor de uma boa história, o que aliado ao seu génio, abriu caminho para o seu percurso académico. Como professor de literatura, Lewis condenava a incapacidade de apreciar uma história independentemente das verdades que transmitia, apenas pela arte de ter sido bem contada. No entanto, Lewis não desprezava o papel do conteúdo, muito pelo contrário. Com uma combinação de rigor e fantasia, Lewis criava cuidadosamente cada personagem e elaborava cada pormenor das suas fábulas, procurando oferecer aos seus pequenos leitores retratos simultaneamente fantásticos e exactos das mais profundas verdades espirituais. Acerca das Crónicas de Nárnia viria mais tarde a afirmar que eram os livros que gostaria de ter lido em criança.
Na sua obra de ficção, conhecida como a Trilogia Espacial, Lewis abordou com a mesma profundidade e fantasia as diferenças entre a filosofia natural e sobrenatural, o pecado original e a tentação, e a luta permanente entre o bem e o mal.
Eram evidentes em Lewis tanto o fascínio pela fantasia como a sua compreensão do potencial de uma boa história. Lewis abraçou o princípio das parábolas e por isso explicava: as histórias são a melhor forma de mostrar uma verdade, pelo menos da mesma maneira em que uma fotografia é melhor do que um mapa.
Mas a mim, já adulto, com uma imaginação enferrujada pela razão e com um coração que poucas e envergonhadas cedências faz à fantasia, ao ler uma das suas fábulas ou ao ver Nárnia em filme, assalta-me uma questão perturbante: o que vêem as crianças que nós não vemos? Que universos me estão já vedados e que verdades por isso me escapam?
Quase simultaneamente me lembro das palavras de Jesus: “Em verdade vos digo: Quem não receber o reino de Deus como uma criança de maneira alguma entrará nele.” Este “de maneira alguma” inspira respeito.
Sabemos das qualidades das crianças. São de um modo geral alegres, generosas e capazes de esquecer e perdoar quase tudo. Têm também algumas particularidades menos boas, como a de se deixarem facilmente comprar por delícias turcas. Mas penso que a qualidade que mais as qualifica para entrar no reino de Deus é a sua abertura de coração, a sua simplicidade e humildade. São como nós também já fomos, sem medo ou vergonha de aceitar e abraçar a existência de um reino, para além do que podemos ver ou tocar, com leis muito próprias, em que o tempo não passa, e em que uma “magia profunda” define o bem e o mal. Um universo com uma nova lógica, em que os primeiros são os últimos e os últimos são os primeiros, em que os maiores são humilhados e os menores exaltados, e em que um menino enganador se transforma num justo. Tão diferente é esse mundo daquele que conformados entendemos, que não poderemos vê-lo nem participar dele se não nos tornarmos como crianças.
As crianças não percebem toda a profundidade da mensagem de Nárnia. Apenas desejam ser eles a entrar naquele guarda roupa, desejam ter também uma poção que cura todas as feridas, e estar presentes quando Aslan ressuscita velhos amigos com o seu sopro. As crianças sonham em poder abraçar o leão e ter o seu próprio encontro com o Pai Natal, que não aparecia há cem anos. É por isso que estão em vantagem. Acho que Lewis também não pretendia que as crianças compreendessem a profundidade de todas as verdades espirituais que retratava. Sabia, no entanto, que apenas ao aceitarem as leis de Nárnia e ao se envolverem com as suas histórias, as crianças estariam a ser preparadas para aceitar e mais tarde compreender melhor o reino de Deus. Estariam a ser instruídas na verdade.
Por outro lado, Lewis sabia que os seus livros seriam também lidos por pessoas como eu. E que essas pessoas se iriam sentir muito desconfortáveis ao perceber que se tinham auto-excluído do mundo da fantasia, onde se abrem as portas para novos entendimentos e dimensões do reino. Lewis sabia que estaria a encorajar adultos racionalistas (provavelmente pensando também em muitos dos seus colegas) a prescindirem das amarras de uma razão caída, e assim se abrirem para a possibilidade de não tendo de fundamentar a verdade, saírem da ignorância.
Crianças e adultos devem a C. S. Lewis a gratidão e o reconhecimento não apenas pelo legado de muitos momentos de beleza e aventura, mas sobretudo por uma ajuda inestimável para aquilo que permite o verdadeiro encontro com Deus: a Fé.
* Licenciado em Engenharia Química, estudante de Doutoramento no Centro de Química-Física Molecular do Instituto Superior Técnico.
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