O Académico, o seu Estilo e o Futuro
Por Tiago de Oliveira Cavaco*
O que me levou a Lewis foi, profeticamente, uma mistura daquilo que hoje lhe reconheço em graus de perfeição: conteúdo com estilo. Por um lado, o apelo enfático e emocionado do professor de Escola Bíblica Dominical (a quem tanto devo), Fernando Ascenso, pregando o evangelho do intelectual britânico às mentes desocupadas de jovens suburbanos portugueses (este desafio nem Deus teria coragem de colocar a Jonas). Por outro, a referência pop do escritor em videoclips dos U2 e conselhos radiofónicos de Marcelo de Rebelo de Sousa. Para um adolescente que ainda precisava de testemunhar o casamento entre a advertência eclesiástica e a sofisticação mundana, C. S. Lewis foi providencial.
Creio que o primeiro livro que terei lido foi Mere Christianity, esquecido algures na prateleira da biblioteca dos meus pais. Foi fogo em gasolina numa fase em que cria que a Humanidade ainda se podia salvar via argumentação. Mas Lewis sobreviveria à crise pós-moderna dos tempos da Faculdade. Seguiram-se O Grande Abismo, Milagres, Vorazmente Teu numa inesperada tradução portuguesa, Surpreendido pela Alegria, Dor (noutra já não tão inesperada tradução portuguesa), A Experiência de Ler (dir-se-ia quase já numa esperada tradução portuguesa) e por último The Four Loves. Assim se percebe que sobre Lewis serei tudo menos um entendido. Mas, pelo menos, rendido.
No recente fervor evangélico à volta de Lewis falta um reconhecimento que o génio do escritor não depende da sua filiação denominacional. A prova é que o autor é reverenciado muito além das fronteiras institucionais do cristianismo. Tivesse Lewis trilhado o caminho estreito da ortodoxia evangélica e dificilmente os evangélicos, algumas décadas volvidas, teriam tanto para lhe agradecer. Mas mais do que apontar a magreza de horizontes daquilo que se convencionou chamar a literatura evangélica da actualidade, interessa concentrar a vista no génio de C. S. Lewis. E é aí que nos deteremos.
O estilo de Lewis não é novo. A sua graça (wit, no inglês) é algo quase consensualmente reconhecido a grande parte da literatura britânica. Basta ter como termo de comparação a francesa ou alemã. Nenhum inglês escreverá por necessidade. Se o prazer não morar perto certamente que preferirá dedicar-se à jardinagem (uma arte tão nobre como escrever, salvaguarde-se). Assim, de pouco nos adiantará bradarmos em praça pública as castas virtudes de C. S. Lewis se não formos capazes de rir com as suas linhas. Sem o estilo, C. S. Lewis seria mais um funcionário da apologética cristã, tão desinteressante como a grande maioria. Hoje poderíamos lê-lo, mas seríamos certamente um número pequeno e, sobretudo, encolhido. Lewis não é pertença da escrita religiosa por causa do talento que o universaliza mesmo entre pagãos. E isto não é consequência de um percurso académico irrepreensível. Mas da outra Graça maior, a divina.
Por uma questão de rigor, a graça de Lewis não pode ser glorificada sem algum tipo de respeito genealógico. E é aqui que o nome de G. K. Chesterton surge com legitimidade. A mim, que me aconteceu ler Chesterton depois de Lewis, pareceu-me encontrar um pai literário, mais gordo, folgazão e católico. É o próprio Lewis que reconhece não poder existir o seu The Abolition of Man sem o The Everlasting Man do outro. O leitor de Lewis facilmente se renderá a Chesterton, iniciando uma viagem regressiva até aos pais da igreja. Uma espécie de sucessão apostólica literária com o relógio ao contrário.
Recordo um episódio em que emprestei uma cópia do Cristianismo Puro e Simples a um amigo. Um dia ele veio confessar-me que o perdera algures num autocarro a caminho de Braga. A calamidade não foi maior porque o livro era dos meus pais e porque eles guardavam outra cópia na tal prateleira (eles não sabem que essa segunda foi removida para a minha própria casa quando me casei – fica o segredo partilhado com os leitores). Estou certo que aquele livro de lombada mal-tratada não voltará vazio para uma pilha de reciclagem. O talento de Lewis é largo e o seu público também. Estou em crer que quer o condutor da viatura, quer o estudante universitário bracarense, poderão conhecer algumas das verdades essenciais do cristianismo com rigor teológico e muito prazer. Rigor teológico e prazer são duas coisas que qualquer cristão gostará de ver unidas.
O futuro de C. S. Lewis é o futuro da boa literatura, dir-se-ia em jeito de cliché preguiçoso. Esse foi o segredo que ao longo da História permitiu que grande parte dos grandes livros fossem livros escritos por cristãos. O exemplo do britânico é precioso numa época em que, com tão proveitosos instrumentos nas mãos, os cristãos evangélicos escrevem cada vez mais para dentro das suas entranhas teologicamente correctas. Tão preocupados em comunicar que perderam o prazer de contar uma boa história. Logo quando afirmam conhecer tão bem a melhor de todas elas.
* Pai de uma filha de dois anos, licenciado em Ciências da Comunicação, membro da Comissão de Televisão da Aliança Evangélica Portuguesa e obreiro auxiliar na Igreja Baptista de Moscavide.
tiagocavaco@hotmail.com
Citações apócrifas de A Experiência de Ler (Porto Editora, 2000)
“É aqui que os puritanos da literatura falham lamentavelmente. São demasiado sérios como homens para poderem ser seriamente receptivos como leitores.” (p. 23)
“Muitos usam a arte e poucos a recebem.” (p. 33)
“Uma confusão entre a vida e a arte, ou mesmo uma incapacidade para reconhecer sequer a existência da arte, (...) a um nível mais elevado surge através da crença que todos os bons livros o são sobretudo porque nos ensinam ‘verdades’ sobre a ‘vida’.” (p. 105)
“Um verdadeiro amante de literatura devia ser de certo modo como um examinador honesto, preparado para dar a nota mais alta a uma exposição completa, apropriada e bem documentada de ideias das quais não compartilha ou inclusive abomina.” (p. 119)
“Só podemos decidir que um livro é mau se o lermos como se, afinal, pudesse ser muito bom.” (p. 160)
“No decurso da minha investigação, rejeitei as opiniões de que a literatura devia ser avaliada por expor verdades sobre a vida e como auxiliar da cultura. (...) Devemos encarar a recepção da obra que estamos a ler como um fim em si própria.” (p. 177)
“A boa leitura, não sendo embora essencialmente uma actividade afectiva, moral ou intelectual, tem algo em comum com todas as três.” (p. 187)