C. S. Lewis: Apologética, Amor e Milagres
Por Alan Pallister*
Durante as férias da Páscoa de 1945, C. S. Lewis dirigiu-se a uma assembleia de ministros e de líderes de jovens da Igreja em Gales (anglicana) em Carmarthen, falando sobre o tema da Apologética Cristã. Começou dizendo que, muitas vezes, os ministros anglicanos pregam doutrinas que não são, de modo nenhum, cristianismo anglicano. Afastam-se desse padrão de duas maneiras: ou por serem demasiado “amplas”, “liberais” ou “modernas” – ou por serem católico-romanas. Quando ultrapassam as barreiras da doutrina bíblica, costumam dar muito valor à sua honestidade em abraçar essas posições. Dispõem-se a não serem promovidos na sua carreira eclesiástica e sentem-se mártires.
Lewis não se queixa por causa da honestidade destes sacerdotes menos ortodoxos. Queixa-se por eles continuarem no ministério depois de mudarem. Diz que uma pessoa, que ganhava a vida como funcionário do Partido Conservador, pode mudar as suas opiniões e vir de uma forma honesta a abraçar o Comunismo. Mas, por honestidade, não pode continuar a receber dinheiro do Partido Conservador quando em realidade apoia a política de outro!
O pregador não pode anunciar aquilo que ele pessoalmente gostava que a Fé Cristã dissesse, ou aquilo que ele acha que pode ajudar as pessoas. Tem que anunciar aquilo que ela diz de facto: o ministro está amarrado às suas fontes históricas da mesma maneira que um cientista está amarrado aos resultados das experiências. Não tem o direito de fugir aos aspectos aparentemente menos atractivos (como o facto de Deus ser Juiz e como a afirmação bíblica de que o Inferno existe), da mesma maneira que a ciência só progride quando os cientistas são suficientemente honestos para encarar directamente os factos incómodos que perturbam as suas teorias preferidas.
Nesta mesma apresentação, Lewis dá alguns elementos interessantes para uma apologética relevante: “No que diz respeito à Encarnação, normalmente verifico que alguma forma de aut Deus aut malus homo (ou Deus ou um homem mau) pode ser usada. A maioria das pessoas fala em termos de um ‘grande professor humano’ que foi deificado pelos seus seguidores supersticiosos. Devemos mostrar como é improvável esta posição entre judeus e tão totalmente diferente de alguma coisa que tenha acontecido a Platão, a Confúcio, a Buda ou a Maomé. As palavras e reivindicações do próprio Senhor – que muitos ignoram – devem ser explicadas”.
Diz que primeiro devemos usar uma argumentação, para minar os preconceitos intelectuais dos ouvintes; depois devemos deixar que o evangelista faça o seu apelo. Confessa que ele próprio não é capaz de fazer apelos evangelísticos – “nem todos podemos fazer tudo” (citando Virgílio) –, mas ambas as tarefas devem ser executadas e podem dar grandes resultados. O que não podemos fazer é tentar agradar pessoas de mentalidade racionalista, suprimindo o milagre e o sobrenatural, e apresentando um cristianismo ‘misturado com água’.
Não obstante toda a veemência com a qual Lewis se dedicou a ser missionário para o clero da sua própria igreja – uma tarefa que assumiu, mas que achou extremamente ingrata – não devemos concluir que ele era aquilo que normalmente se considera um evangélico. Tinha sérias reservas em relação com a doutrina da inspiração verbal da Bíblia – uma doutrina que normalmente é considerada consensual entre todos aqueles que se intitulam evangélicos. Por isso não era convidado para dar palestras na InterVarsity Fellowship (equivalente do nosso Grupo Bíblico Universitário). O que acontece é que, na maior parte das vezes, falava e escrevia como se acreditasse que toda a Bíblia era de inspiração divina!
No seu famoso livro O Problema do Sofrimento, publicado perto do princípio da Segunda Guerra Mundial, Lewis debruça-se sobre a questão do amor de Deus e o facto de Ele permitir o sofrimento. Afirma que, quando o Cristianismo diz que Deus ama o homem, isto significa amor mesmo. Não significa alguma preocupação desinteressada – por ser de facto indiferente – com o nosso bem-estar. Pode ser um Senhor de aspecto terrível – mas ama mesmo! Não é a benevolência senil de alguém que deseja que sejamos felizes da maneira que nós achemos bem. Não é a filantropia fria de um jurista consciencioso. Não é o cuidado de um anfitrião que se sente responsável pelo bem-estar dos seus hóspedes. É o fogo consumidor, o Amor que criou os mundos, persistente como o amor de um artista pelo seu trabalho, providente e venerável como o amor de um pai pelo seu filho, e zeloso e inexorável como o amor entre homem e mulher. Sente dor pela Sua criatura como Jesus sentia dor pelos filhos de Jerusalém.
O problema de reconciliar o sofrimento humano com a existência de um Deus que ama, só é insolúvel enquanto damos um sentido trivial à palavra “amor”. E enquanto encaramos as coisas como se o homem fosse o centro delas. Lewis afirma que o homem não é o centro. Deus não existe por causa do homem. O homem não existe por causa de si próprio. “Tu criaste todas as coisas, e para o teu prazer são e foram criadas” (Apocalipse 4:11). Não fomos criados para que amássemos Deus, mas para que Ele nos amasse e fossemos objectos do Seu prazer. Isto explica a natureza aparentemente cruel da disciplina à qual Ele nos sujeita muitas vezes.
É verdade que Lewis posteriormente, devido ao sofrimento e ao falecimento da sua esposa Joy, sentiu que muitos dos seus próprios argumentos, usados no livro O Problema do Sofrimento perderam o seu valor. Sentiu, naturalmente, que tinha estado a falar como um teórico – um académico celibatário até à meia-idade, que não tinha experimentado o sofrimento em primeira-mão. Mesmo assim, creio que podemos fazer uma avaliação muito positiva dos seus argumentos. O facto é que ele, na sua palestra para os ministros e para líderes de jovens anglicanos, assume que os argumentos, depois de usados, parecem fracos. Mas não fazemos um bom serviço à causa de Cristo se deixarmos de os usar.
Uma das obras de Lewis que dá mais evidência de uma mente rigorosa e filosoficamente preparada, lidando com problemas apologéticos, é Milagres (1947). É difícil dar uma amostra da sua argumentação aqui. Basta, talvez, considerar a sua definição de milagre . Diz que é incorrecto definir um milagre como algo que quebra as leis da natureza. Se ele sacode o seu cachimbo para tirar o tabaco, altera a posição de um número muito grande de átomos. Mas a natureza digere e assimila este acontecimento com toda a facilidade e harmoniza-o com outros acontecimentos. Da mesma maneira, se Deus aniquila ou cria uma unidade nova de matéria num momento, a Natureza apropria-se dessa nova situação, fá-la sentir-se “em casa” na sua esfera e adapta todos os outros acontecimentos a ela. Se Deus cria um espermatozóide milagroso no corpo de uma virgem, não tem de quebrar nenhuma lei a seguir. As leis normais da natureza tomam conta da situação e, de acordo com essas leis, a criança nasce na altura normal, nove meses mais tarde.
Da mesma maneira que Deus criou a natureza com as suas regularidades, Deus é a causa dos milagres. Mas os resultados do milagre seguem o curso da Natureza tal como qualquer outro acontecimento. A origem do milagre não se encaixa na Natureza, mas sim no Deus que é o Criador comum da Natureza e dos milagres.
Nesta mesma obra, Lewis demonstra as incoerências internas do Naturalismo como sistema. Para podermos afirmar que só existe a Natureza e as suas causas naturais, precisaríamos de sair da natureza, contemplando-a “de fora”. Mas o Naturalismo nega a possibilidade de sairmos da natureza, tornando assim impossível (sem ser numa atitude de “fé cega”) negar que exista alguma realidade fora dela.
De diversas formas Lewis torna racionalmente credível a fé num mundo sobrenatural e num Deus Criador que intervém no mundo que criou. Pode não ter nenhum argumento suficientemente forte em si para “esmagar” todo o vestígio de ateísmo ou incredulidade. Mas tem uma habilidade fora do comum para “desmantelar” o dogmatismo da incredulidade e para sugerir, com tacto e com moderação, que talvez a fé seja uma opção racionalmente mais convincente.
Consideremos, para concluir, este argumento de um sermão entregue na Igreja de Santa Maria a Virgem, em Oxford, com o título Peso da Glória: “A despeito de tudo, portanto, permanecemos conscientes de um desejo que nenhuma felicidade natural é capaz de satisfazer. Mas haverá alguma razão para supor que a realidade ofereça alguma satisfação para esse desejo? “Nem a fome prova que existe pão”. Penso, no entanto, que não se trata disso. A fome física de um homem não prova que ele encontrar pão; ele pode morrer de fome numa jangada em pleno Atlântico. Mas, com certeza, a fome de um homem prova que ele pertence a uma espécie que restaura o corpo por meio de comida e habita num mundo onde existem substâncias comestíveis. Da mesma maneira, embora eu não creia (quem me dera cresse!) que meu anseio pelo paraíso prove que eu vá usufruir dele, penso ser um sinal bastante seguro de que existe algo parecido e de que alguns homens vão encontrá-lo. Um homem pode apaixonar-se por uma mulher sem conquistá-la; mas seria muito estranho se o fenómeno de ‘ficar apaixonado’ ocorresse num mundo assexuado” (Peso da Glória, Ed. Vida Nova, 1993).
* Licenciado em literatura inglesa e teologia, casado com a Celeste, pai de quatro filhos, pastor da Igreja Baptista de Caldas de Rainha, professor no Seminário Teológico Baptista e ESETE, director do Centro Canto da Rola.
alanpallister@clix.pt