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MISSÃO E ESPERANÇA - SOCIEDADE: O OLHAR DA INCERTEZA

Samuel Mendes, 2010-01-14

Missão e Esperança

Sociedade: o olhar da incerteza

Tanto medo que a realidade por vezes nos causa! As circunstâncias e as crises da vida. Quantas incertezas nos trazem o futuro. Para muitos o futuro já não traz nada senão nuvens escuras e um vazio. Sentimo-nos paralisados diante de tantas mudanças, ameaças económicas, instabilidade do emprego, etc. Há um sentimento de insegurança crescente diante da opressão e violência na família, das feridas emocionais e da angústia dos nossos dias. Que resposta?

Por vezes parece que a esperança morre. Os dois discípulos de Emaús caminhavam vazios, com medo, com o olhar da incerteza. Numa época de dúvida e pessimismo em que vivemos, encontramos na manifestação de Jesus uma profunda mensagem de esperança. Jesus fez o caminho com eles, identificou-se com as suas dúvidas, partiu com eles o pão mostrando-lhes o sentido da História. Este encontro e a certeza da ressurreição mudou o seu olhar e o seu destino. A ressurreição é o fundamento da nossa esperança. Esta é a “viva esperança”, que significa vida eterna para aquele que crê.

Ele que se revelou aos demais discípulos depois da ressurreição, no momento da dúvida e aflição com a sua presença dizendo-lhes “Paz seja convosco”, deixou-nos a promessa de que estaria sempre connosco até ao fim.

“Não tenham medo” diz-nos Jesus na abertura do Apocalipse através de João, diante do que ainda iria ser revelado até ao fim. Ele é o Senhor da História. Ele tem a última palavra.

No Apocalipse há uma espiritualidade que nos capacita a enfrentar o que está por acontecer. Conduzida pelo Espírito à Palavra, que nos revela Jesus Cristo e que nos une nos laços da sua comunidade, que é fortalecida na sua fé para viver os desafios que enfrentamos.

“O encontro com a Palavra de Deus é fonte de esperança. Não há situação perdida. De forma inesperada, Deus actua e faz novas as coisas que julgávamos perdidas.

É por isso que há esperança também para nós. É por isso que somos convidados a nos reencontrar com a Palavra de Deus, para que algo novo possa surgir em nós e entre nós. É por isso que Deus não deixa de nos chamar para si.” 1

Missão: encontro, comunidade e esperança

Um dos desafios que temos como estudantes, graduados, igreja em missão, é enfrentar o medo que caracteriza a cultura pós-moderna. A realidade de uma sociedade cada vez mais secularizada e ao mesmo tempo mais angustiada e perplexa diante de tantos problemas e incertezas. Temos a convicção de que o evangelho é a esperança do mundo e a igreja é parte desta esperança.

Se a igreja na Europa perdeu a sua visão, na ansiedade de tornar o evangelho mais atraente, “sacrificando o evangelho no altar da modernidade” nas palavras proféticas de L. Newbigin há duas décadas, vivemos hoje a ameaça na pós-modernidade de sacrificar a essência pela estética, a verdade pela vivência, a mensagem pela emoção, o conteúdo pela intuição, a ética pela sensação. Esta é a grande ameaça para a igreja actual diante da espiritualidade pós-moderna. Viver sensações sem mensagem e ter visão sem voz. O que vale é a sensação, não necessariamente a mensagem em que mais importante do que quem É Deus, é sentir Deus.

Em resposta, temos o desafio de viver uma espiritualidade bíblica integral. Isso implica anunciar não só as promessas, mas as exigências do evangelho; mostrar não só um interesse pelas almas, mas pelo ser humano integral; buscar a transformação de indivíduos, mas também da sociedade como um todo. Outro desafio é o de uma apologética relacional e contextual, reflectindo a veracidade e relevância do cristianismo, mas também os relacionamentos que exemplificam e modelam, numa coerência entre fé e prática. Creio que a esperança cristã é muito superior à capacidade humana de sonhar com um mundo melhor de utopia. É bom sonhar com aquilo que “olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, mente nenhuma imaginou”.

O exercício da esperança é incomparavelmente melhor! Na esperança encontramos confiança, certeza fértil e optimista. Por isso, “sem o conhecimento de Cristo pela fé, a esperança pode tornar-se como a utopia, que paira em pleno ar. Sem a esperança, entretanto, a fé decai, torna-se fé pequena e finalmente morta. Por meio da fé, entramos no caminho da verdadeira vida. A fé em Cristo transforma a esperança em confiança e certeza; e a esperança torna a fé em Cristo ampla e lhe dá vida”. A esperança lembra-nos que a nossa vida tem de facto sentido, porque Jesus Cristo tem a última palavra.

Reino, esperança e eternidade

Entre a primeira e última palavra de Deus acontece toda a história da humanidade e da igreja. Em Cristo, a história tem início, desenvolvimento e destino. É Ele que a preserva, chama para a sua missão e pôs nas nossas mãos uma proposta para a humanidade: Celebrar a vitória do Cordeiro que entrou na história para a redimir. Por isso a igreja celebra, confessa, adora e testemunha. Sem esta proclamação a humanidade continuará a acreditar que não há saída, que todos os dias são iguais e que não há esperança.

A linha da esperança foi dada aos homens quando a harmonia da humanidade e da natureza com o Criador foi quebrada. O seu final está na consumação dos tempos, no fim da história, na plenitude da salvação.

Por isso a nossa caminhada enquanto discípulos de Jesus não é indefinida. O pecado, a injustiça e a morte “os céus e a terra que agora existem” darão lugar àquilo que “olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, mente nenhuma imaginou”, os “novos céus e nova terra”. Graças à soberania e ao amor de Deus, que nos enviou Jesus Cristo para remover o pecado do mundo e fazer novas todas as coisas! Por isso os propósitos de redenção de Deus são inquestionáveis.

Acredito que a mensagem final do Apocalipse, Palavra e a visão do Cristo glorificado são a visão que deve determinar a nossa fé e a nossa missão, como igreja.

O Leão de Judá dá lugar ao Cordeiro. O Senhor Jesus é aquele que tem a voz como o som de muitas águas, é quem estende a mão para tocar-nos e dar-nos profunda paz. Ele consola-nos e acompanha-nos durante o sofrimento. “Não tenham medo” é a resposta de Jesus. Ele põe à nossa disposição o seu poder que transforma a prova em vitória, a morte em vida, e vida que é eterna. Não temos nada a temer porque a garantia do futuro está em Jesus Cristo, aquele que venceu a morte. Todo o futuro está nas mãos daquele que é eterno. O futuro está nas mãos de Jesus Cristo, o Alfa e o Ómega. Nós, que cremos, não devemos ter medo do futuro, nem perder a esperança. Ele é o princípio e o fim. Vivamos com confiança pois o futuro traz a consumação dos propósitos eternos de Deus.

Então haverá paz, justiça… Relembrando um dos cânticos da nossa história:

“Porque ele entrou no mundo e na história,

Por ter quebrado o silêncio e agonia,

Porque encheu a terra de sua glória,

Porque foi luz em nossa noite fria.

Por isso é que hoje temos esperança;

Por isso é que hoje lutamos com porfia;

Por isso é que hoje vemos, com confiança,

O futuro desta terra a cada dia.

Porque uma aurora viu sua grande vitória

Sobre a morte, o medo e o mal,

Agora nada pode deter sua história

Nem a vinda do seu eterno reino celestial.”

Somos peregrinos neste mundo e por vezes a viagem pode cansar-nos. Podemos ficar abatidos, desanimados, mas depois chega o momento de voltarmos o nosso olhar para a cidade da glória de Deus, que descerá no final dos tempos; da paz completa, da justiça perfeita, em que não mais haverá dor ou sofrimento. A eternidade, onde viveremos e desfrutaremos da plena comunhão com Deus. Esse é o nosso destino! Esta é a expectativa cristã e estamos a caminho…

Que o próprio Jesus Cristo, através da sua palavra e do seu Espírito nos renove a esperança.

Samuel Mendes

Secretário Geral

GBU-Portugal

Notas:

1 - Valdir Steuernagel, artigo “No caminho da conversão integral”

[Notícia n.º 3571, inserida em 2010-01-14, lida 334 vezes.]

 

 

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