LUTHER KING JR. E CALDWELL
Celebrou-se a 18 de Janeiro, nos Estados Unidos da América do Norte, o "DIA DE MARTIN LUTHER KING JR." e tal coincidiu com o fim da minha leitura de mais um dos muitos romances do grande escritor norte-americano Erskine CALDWELL, "Miss Mamma Aimée"("Mamã Aimée", em português), edição da Livraria Bertrand, colecção Autores Universais.
Do que foi Pastor evangélico de confissão Baptista estará tudo dito, eventualmente. Bastará perceber o significado daquela que é, ainda, a maior potência mundial ter hoje como seu presidente eleito Barack OBAMA, inequivocamente um homem de raça negra ou, se quisermos o políticamente correcto, um afro-americano. Do caucasiano Caldwell poucos das gerações dos 30 ou 40 anos de idade para baixo terão ouvido falar e, porventura, menos terão abordado alguns dos seus livros, dos quais se destacam "Tobacco Road"("A Estrada do Tabaco"), 1932, em que a história se desenvolve no quadro da "Grande Depressão" ou, por exemplo, "In The Shadow of the Steeple"("Os Mil e um Sinos do Sul"), 1966, que alguém chamou "o seu relatório passado a limpo" do seu vastíssimo conhecimento das vivências de negros e brancos na sociedade do "deep South" dos Estados Unidos e das igrejas ditas fundamentalistas nas suas expressões cultuais mais exóticas... Filho de um pastor evangélico presbiteriano, Caldwell nasceu em 1903 e veio a falecer em 1987.
Há quem diga que os livros que escreveu após a morte do seu pai, de quem recebia todo o apoio e incentivo, nos anos 40 já não traziam a força dos anteriores. Deixo isso para os especialistas. Porém, não quero deixar de, homenageando desta forma simples, tanto um como o outro, respigar uma passagem do romance agora acabado de ler. O diálogo travado em "Mamã Aimée" entre esta, uma viúva proprietária decadente da aristocracia do Sul dos "States", terra que foi de esclavagistas, com a sua fiel e antiga empregada negra, Martha Washington, que se insurgia contra o miserável salário que recebia por um trabalho penoso e sem horário para uma estranha família de mais de seis pessoas. Tratava-se de admitir na casa mais uma personagem, no caso um dito pregador evangelista vindo das montanhas do Tennesee e, portanto, mais um acréscimo da carga para a "trabalhadora doméstica":
"- ... ... Pode ser um bom pregador para os brancos, mas ele já me explicou que não tenciona partilhar a sua religião com as pessoas de cor. Esse género de conversa recorda-me demasiado a Cruz Branca("KU KLUX KLAN") para me agradar."
Mamã Aimée perplexa com o arrojo da empregada, replica:
" - Tão certo como o erguer do sol, Martha Washington, bem sei quem a levou a tomar essa atitude -, disse Aimée acenando a cabeça com ar entendido -. Oh se sei! Sei-o com o coração e a alma, pode crer. Você tem dado ouvidos a esses perturbadores da ordem da sua raça, não é? Posso adivinhá-lo pela sua atitude tão deslocada como a sua maneira de falar. Os seus perturbadores da ordem é que a convenceram a ir-se embora por mero despeito contra os brancos. Tentam impedir que tenhamos criados negros para nos ver sofrer. Agem no mesmo sentido desses "clubes de desapontamento" que vocês tiveram em tempo. Mas agora é pior, porque vocês querem deixar os patrões para sempre, em vez de apenas recusarem trabalhar durante um ou dois dias, nos momentos em que sabiam ser mais necessários".
A "Miss Mamma Aimée", como Martha a tratava, contra a vontade da patroa(...) não aceitava o direito dos oprimidos e explorados, e ainda por cima da cor negra dos velhos escravos das plantações de algodão, ao protesto contra a resignação numa sociedade segregacionista e injusta como até final dos anos 60, duma forma particular, era a dos norte-americanos, especialmente nos estados do sul. Os "yankees" haviam trazido novas ideias de igualdade que os velhos senhores não entendiam e a reacção era ainda maior porque as feridas da Guerra Civil e do fim do esclavagismo estavam ainda por sarar.
É então que Aimée conclui triunfantemente:
" - Eu bem sei quem está por detrás disso, prosseguiu ela. - É esse Martin Luther King, que anda sempre a imaginar processos variados para prejudicar os brancos. Alguém devia chamá-lo à parte e dar-lhe uma boa lição, para bem da sua raça. Sinto-me magoada por ver que deixou esse Martin Luther King meter-lhe essas ideias na cabeça. Sempre tive pena de si e você bem sabe.
Não reproduzo o romance todo, mas ainda peço vénia à "Livraria Bertrand S.A.R.L." para citar mais uma parte do discurso reaccionário da "Mamã", ao saber que Martha se despede para ir trabalhar para uma família ianque, ainda para mais de judeus, que não só assumiam cumprir com todos os deveres para com a segurança social da trabalhadora como lhe ofereciam uma bem maior remuneração e horário de trabalho com períodos de descanso aceitáveis:
" - ... ... Os ianques brancos puros já são bastante maus, mas os judeus ianques são tudo quanto há de pior. Os judeus ianques são mais ricos do que seja quem fôr e, de uma maneira ou doutra, sabem servir-se do dinheiro para obter o melhor de tudo. Já procurei na Bíblia mas não encontrei escrito em parte alguma que eles tivessem o direito de viver melhor do que as outras pessoas. Você bem sabe como é Martha. Mudam-se para aqui e começam a estragar os negros o mais depressa possível, oferencendo-lhes mais ordenado e menos horas de trabalho do que os brancos podem permitir-se. É o estratagema que empregam para estragar a sua raça, de forma a nunca mais quererem trabalhar para nós. Tenho cá uma destas vontades de ir contar o que se passa aos homens da Cruz Branca.
- Já lhe disse, Miss Mamma Aimée, que agora não tenho medo desses homens da Cruz Branca como dantes. Os tempos mudaram para os negros e já não precisamos de viver sempre assustados.
Longe já iam os tempos do tema da canção de Billie Holiday "Strange Fruit" em que cantava: "Southern trees bear a strange fruit/Blood on the leaves..." .
Luther King Jr. foi Prémio Nobel da Paz, com todo o mérito. A Humanidade, no sucesso da luta contra o racismo e todas as formas de fascismo e anti-semitismo, deve-lhe muito.
Erskine Caldwell, embora só de "Tobacco Road" tenha até hoje vendido mais de 80 milhões de exemplares, traduzido para 43 línguas, esteve à beira do Nobel no final da década de 60, mas, tal como tantos outros grandes escritores bem maiores que muitos "nobeis", não o conseguiu. Muito embora o também grande escritor William Faulkner, seu contemporâneo, o considerasse um dos cinco maiores romancistas da América, o conservadorismo e o falso moralismo puritano quiseram-no reduzir a um escritor maldito e imoral por fazer descrições bem realistas da sexualidade pública e privada de muita gente, especialmente dos hipócritas. Embora a verdadeira razão seja que ele pôs a nu a abominável radiografia da sociedade que espezinhou seres humanos, como se de mercadoria se tratasse, para os seus mais ignóbeis fins. Caldwell foi mais um dos gritos de denúncia, ao lado também de um Steinbeck, de um Faulkner, John dos Passos e, depois, Norman Mailer, que a Literatura americana e universal tem dado para que haja decência, justiça e humanidade entre os homens.
Também quiseram denegrir King(os "Hoovers "e outros FBI's" que existem não só nos "States"), mas o resultado foi o mesmo. Como Camões escreveu, "aqueles que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando"...
Afinal, pela importância da atitude e vida de Luther King para a civilização ocidental e pelo conteúdo objectivo da obra de Caldwell para o pensamento contemporâneo, circunstancialmente aqui reunidos, não é favor declarar que os valores fundamentais do Cristianismo se mantêm vivos! (Para quem tende a desanimar com o que de negativo se vai observando por aí...)
Vitor Mendes
Aveiro, 20 de Janº.2010
vitorinacio.mendes@yahoo.com
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