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OS LÁBIOS DE ISAÍAS

João Tomaz Parreira, 2010-02-09

Palestra proferida na Igreja Evangélica Baptista de Benfica, Lisboa, em 6 de Fevereiro de 2010, por João Tomaz Parreira

OS LÁBIOS DE ISAÍAS

Se me permitem, começo com uma referência da literatura italiana, a obra mais importante da poesia italiana do século XIX Os Cantos, de Giacomo Leopardi:

«Eu vejo as paredes e os arcos

e as colunas e as estátuas e as solitárias

torres dos nossos avós

mas a glória não a vejo»

Não procuro a semelhança, nem na forma nem nos objectos comunicáveis, nesta invocação na célebre obra de Leopardi com os cânticos bíblicos de Isaías, mas no sentimento que ambos evidenciam a mais de dois milénios de distância um do outro.

Por assim dizer, na sua linguagem poética ambos tratam de glória e queda de um povo, de um império, de uma civilização. Isaías acompanhou também a glória e a queda de Judá e de Israel.

Nem um nem o outro têm, nesta comparação, uma poética idílica.

Leopardi, perplexo diante das pedras sem glória, da inexistência dos louros das vitórias, e do ferro das lanças que invocavam os ossos dos antepassados;

e Isaías diante de uma vinha sem sebe, pisada, entre espinheiros e abrolhos, tornada um deserto.

Os dois, afinal, tratam de metáforas.

A metáfora é o núcleo da Poesia, o cerne do fruto chamado poema e, ao mesmo tempo, a sua casca. A metáfora transfere uma significação para outra. A metáfora compara. Os olhos de Leopardi, sobre a sua pátria, e os lábios do Profeta sobre o seu povo.

Antes de serem os lábios de um profeta, que teria de confrontar a casa de Israel ainda que na forma dos seis ais divinos (5, 8-23), dos avisos da desintegração nacional por causa da iniquidade, os lábios de Isaías foram lábios de poeta.

«Cantarei ao meu amado, o cântico do meu amado a respeito da sua vinha»

Desde logo, o inevitável instrumento aplicado do paralelismo da poesia hebraica, de um modo tautológico, repetição na qual se invoca liricamente um cântico que corresponde ao sentimento de posse de algo amável. Uma vinha.

Sabemos que não é a grande extensão do cântico que fará dele uma poesia, sabemos;

embora não seja pois pela sua extensão nem epopeia nem tragédia, também sabemos;

como ensinaria Aristóteles na sua obra de maior influência sobre toda a Poesia Ocidental, a chamada Poética, tem esse cântico de Isaías os elementos necessários para expressar uma síntese harmoniosa de ambas, de epopeia e tragédia.

«O meu amado teve uma vinha num outeiro fertilíssimo. / Sachou-a, limpou-a das pedras e a plantou de vides escolhidas; edificou no meio dela uma torre, e também abriu um lagar. Ele esperava que desse uvas boas, mas deu uvas bravas. (…) // Que mais se podia fazer à minha vinha, que eu lhe não tenha feito?»

Há no cântico do profeta uma técnica facilmente verificável de parábola. A invocação do poeta dizendo-nos qual o teor do seu canto, qual o objecto comunicável do mesmo.

Não há acção, mas existe lirismo, sem rima, nem métrica, mas com paralelismos. Há desenlace, elemento integrante da epopeia, há o nó da acção. Harmonia e ritmo. Podemos perceber uma proposta do narrador poético acerca dos cuidados que o dono da vinha teve, as metáforas uvas boas, uvas bravas, cântico de amor de Jeová como Deus dos Judeus, vinha e Amado expressões próximas do Cântico dos Cânticos, o epitalâmio substantivo do Amor entre homem e mulher.

No século 8º Antes de Cristo, o profeta cujo nome tinha a carga semântica da função do próprio Jeová, porque significava «salvação do Senhor», era um vate que usava linguagem formalmente poética, segundo dizem os especialistas, em grande parte do corpus da sua extensa Profecia.

Dante da Poesia bíblica, lhe chamaram. Porque Dante introduziu um Stilo Nuovo na poesia renascentista e Isaías também, na forma de escrever a sua Profecia?

Porquê Dante? Por este ser um admirador da arte dos Salmos? E da Roma cristã? Pelo estilo da escrita, das imagens, pela potência inventiva das frases, ou pela sua estrutura visionária da sua obra-prima? A Divina Comédia? Sobre Dante escreveu-se que ele vê e sente por imagens. Cada episódio é um reflexo variado de tudo aquilo que agita a alma de Dante.

Ele sente-se como vidente e profeta investido de uma missão divina.

Dante sofre perante tais imagens dessa visão dantesca, a que já se chamou a «danteide» desde o Paraíso ao Inferno.

Isaías sofreu perante a visão do Servo Sofredor, do Cristo na figura da ovelha muda perante os tosquiadores, sem beleza alguma para que fosse desejado. Isaías cujo nome tem parecenças no sentido do de Jesus, «o Senhor salva», é talvez por essa razão considerado o «Dante da poesia bíblica».

Também porque existe uma observância das normas da poética no livro bíblico do profeta Isaías.

Com efeito, existem provas incontáveis de como a melhor poesia pode prescindir do metro e não refiro sequer o verso livre, que é coisa que não existe.

No estudo de uma poética ocidental, não foi por mera referência editorial que se escreveu sobre a grande poesia que pode dispensar a metrificação, e que tal se estende até ao livro bíblico de Isaías.

Uma referência do nosso tempo, o crítico literário Harold Bloom já havia escrito, que, face à realidade social em que se vive, o homem actual é exortado a encontrar “em Platão ou em Isaías a origem da nossa moralidade.” (O Canone Ocidental, pág.39)

O estilo deste profeta integra uma unidade que a crítica não pôde desintegrar, embora desde o século XVIII o tentasse fazer. Como é do domínio dos estudiosos, essa crítica colocava em questão a identidade do autor, sugerindo a hipótese de várias identidades autorais do Livro bíblico profético.

O prof. Adriano Moreira afirmou, a este propósito, que, contrariamente às hesitações da tal crítica, o Livro de Isaías mantém a continuidade da voz e da mensagem, da voz de Isaías e da sua Profecia, nas Escrituras Sagradas.(Isaías, Três Sinais Editores, Apresentação de AM)

O filho de Amoz estabelece desde o início o paradigma do seu Livro ao declarar que o mesmo será resultado de uma Visão. Viu a Santidade divina.

E di-lo de uma forma linear, comparativamente ao princípio do livro do Ezequiel, que o faz de um modo prosaico e muito histórico-literário, também. O termo hebraico (châzôn) para as nossas sonho, revelação, oráculo, é a mesma e compara-se ao grego orasis, o que equivale à coisa que se torna visível. E a poesia torna os objectos visíveis nas palavras. Gostaria também de usar aqui o termo «poesis», que significa «fazer», referindo-o como uma forma de arte, de criatividade visual.

Com efeito, a poesia existente no Livro de Isaías permite-nos que «vejamos» o que o profeta escreve e vaticina, as suas imagens, as suas metáforas.

Por exemplo, do entrecho poético:

“Como são belos sobre os montes // os pés do mensageiro // que anuncia a paz, // que traz a boa nova, // que apregoa a vitória, que diz a Sião: // “Já reina o teu Deus”( Is 52,7).

Os “pés do mensageiro” com feridas, sujos da poeira da estrada, são “belos” na poética do profeta. A razão é a qualidade da mensagem, a sua totalidade mensageiro / mensagem, a boa nova que é ela própria um som de paz. Forma e conteúdo da mensagem são a mesma coisa: uma voz pacífica perante a visão dos atalaias que já distinguem o retorno do Senhor a Sião.

Outro entrecho do Livro, o cap.53 é paradigmático. Sendo profecia, traduz porém o acontecimento numa linguagem estruturada em símiles e metáforas. A antevisão da paixão e crucificação do Messias é notavelmente da disciplina da arte poética.

Poderíamos dizer que na poética do profeta bíblico existe o paradigma de uma antecipação do estilo modernista, 2.600 anos antes, obedecendo no entanto ao rigor das normas hebraicas, mas com apontamentos da área dos tropos da linguagem. Como alguém considerou, é fácil descobrir que o Livro de Isaías contém mais vocabulário do que qualquer outro livro da Bíblia e artifícios de linguagem.

Antes de nos movermos para outro ponto sobre a poeticidade do escrito Isaías e sobre este como poeta, deixem-me exemplificar:

ele usou um esquema que hoje conhecemos como quiasmo. Esta figura literária de repetição pode ser pensada como a do paralelismo hebraico.

Assim esquematizado:

ABCDDCBA ou, o processo mais simples ABBA

Vejam-se dois exemplos:

A-Efraim B-não invejará a Judá B- e Judá A-não oprimirá a Efraim. ( 11,13)

e 55:8: A-Porque os meus pensamentos B-não são os vossos pensamentos, B-nem os vossos caminhos A-os meus caminhos, diz o Senhor.

A observância da poética em Isaías é um problema da cultura, problema do qual faz parte a solução para o entendimento da linguagem da poesia de uma boa parte do livro do profeta bíblico.Tanto na forma como conteúdo. A partir de uma forma substantiva e corpórea: os seus Lábios.

Lábios de Isaías, de profeta ou de poeta? De ambos.

Não resisto a citar o poeta do romantismo inglês, Byron, amigo e visitante de Sintra:

“Coração em seus lábios,

e alma no interior de seus olhos”

Que melhor reunião de profecia e poesia? Os olhos do profeta vêm, avançam na escuridão para o futuro; a poesia canta o momento nos lábios.

Os lábios de Isaías iriam receber uma centelha do fogo divino. Sem Prometeu e antecipando-se mesmo a Ésquilo [ Prometeu Acorrentado. Ésquilo (c. 525 AC-456 AC) ] , Deus fez tocar os lábios de Isaías com o fogo sagrado. O próprio transcreveu a auto-afirmação divina sobre a eternidade da palavra e da boca que a profere : «Assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará vazia», e os lábios e a boca do profeta foram a extensão da Boca de Deus.

Para uma boa exegese/hermenêutica dos profetas, quaisquer que eles sejam, nomeadamente dos grandes profetas históricos, como Isaías ou Jeremias, precisamos distinguir na sua pregação, na sua voz, nos seus lábios, o que se designa por «palavra de disputa», no plano da sociedade civil e religiosa, sobretudo teocrática em que se inseriram.

A «palavra de disputa» , digamos assim, é o produto das suas disputas com a opinião comum do povo, contra a Palavra Divina. O profeta faz perguntas ( e.g. Amós «Andarão dois juntos se não tiverem de acordo?») e responde, e as suas respostas teriam que estar em lábios ungidos.

Isaías numa ocasião especial e dramática, que envolvia as suas próprias apetências como profeta de Deus, as suas dúvidas sobre si próprio, fez ele mesmo uma questão, não interrogativa, por isso sem retorno, mas observando:

«Ai de mim! Estou perdido! // Porque sou homem de lábios impuros, // habito no meio de um povo // de impuros lábios» (6,5)

Fossem qual fossem as formas estilísticas que o profeta usasse, no caso de Isaías com estrutura poética, carecia sempre de lábios purificados, por a visão ser de Entidade Celestial. Várias vezes na História da Literatura moderna, para não falar da Clássica, grega ou latina, a poesia foi tida como visão, e o poeta um «pequeno deus». Esta expressão é do início do século XX, veio do movimento Criacionista do poeta chileno Vicente Huidobro. Dizia-se aos poetas que ao invés de falarem de rosas, criassem a rosa no poema.

Isaías, profeta, homem de Deus e poeta, teve porém a consciência dos seus limites, a manifestação da impureza dos seus lábios como instrumentos para fazer passar a grandeza da mensagem, a procedência da mensagem, sabia que os seus lábios não poderiam acompanhar os seus olhos, porquanto estes viram a grandeza e o esplendor de Deus.

Viram o Senhor, os exegetas bíblicos asseguram que Isaías viu Adonai, Jehová, e viram toda a meta-história que essa Revelação lhe trouxe e ao seu povo, Judá e Israel.

Os olhos que vêem o Santo de Israel precisam de lábios puros para dar a notícia.

A visão de Isaías foi única, não teve outra, e a parte revelada do Advento do Filho de Deus também foi unívoca, jamais outro poeta bíblico se expressou como Isaías. E o significado era sem dúvida o Nascimento do Messias.

O Advento fazia parte, na expressão profético poética de Isaías, dessa meta-história, para a contar teria que ter lábios purificados. Os lábios, neste contexto, são uma metáfora, ou talvez melhor, uma metonímia, de Cânticos, descrevem sempre por comparação ou contiguidade, os louvores dos lábios.

No versículo 3 do texto bíblico (Isaías,6 ) que concerne à visão, lê-se que os serafins noticiavam uns aos outros e cantavam: «Santo, Santo, Santo, é o Senhor dos Exércitos»

Do fogo do altar viria na mão de um serafim «uma brasa viva», literalmente uma «pedra incandescente» com a qual tocaria os lábios, o meio da expressão, o próprio conteúdo dessa expressão a transmitir.

Os lábios de Isaías eram, em última análise, o exterior do seu interior, isto é, purificados os lábios, o seu recôndito estava purificado do pecado e a iniquidade havia sido tirada. No próprio texto há uma estrutura poética, em função da figura do paralelismo que faz parte da poesia hebraica bíblica.

«Eis que isto tocou os teus lábios; e a tua iniquidade foi tirada, // e purificado o teu pecado», isto é, queimado pelo fogo.

Estava preparado para abrir a sua boca e dos seus lábios aptos sairia a notícia, a Boa Nova do Advento.

Porque um menino nos nasceu, // um filho de nos deu; // e o principado está sobre os seus ombros; // e o seu nome será // Maravilhoso Conselheiro, // Deus Forte, Pai da Eternidade, // Princípe da Paz.

Sendo considerado o primeiro dos evangelistas, viu o Amor de Deus a entrar solene com corpo no mundo antigo, a estabelecer a era da Graça.

Estabeleceu na sua profecia uma moralidade transmitida por palavras poéticas e uma ética na sua narrativa que apontava os erros e o futuro de Israel.

E mesmo em «pregações» como o célebre capítulo 53, o chamado «orador» -«Quem deu crédito à nossa pregação?» ao referir-se ao devir, ao vir a ser do Redentor, e antecipando também as objecções dos incrédulos judeus,

apresenta o Messias não exclusivamente em tom de kerygma (pregação, o que se anuncia), mas eu diria que numa dicção poética, devido a algumas metáforas e símiles utilizadas.

Mas é na descrição poética de um mundo em trevas, uma metonímia para a morte, onde as sombras se prolongavam dos olhos do povo, toda a nação Judá e Israel, que Isaías embeleza o seu escrito, a fim de trazer a esse «povo que andava em trevas» o Messias. E novamente aqui as incontornáveis figuras de linguagem, de novo a metáfora e a símile.

«O povo que andava em trevas // viu uma grande luz, // e sobre os que habitavam // na região da sombra de morte resplandeceu a luz. // Tu multiplicaste este povo e a alegria lhe aumentaste»

A primeira nomeação que Isaías usa para qualificar esse Filho Messiânico, que viria alterar toda a estrutura desse texto de Escritura Sagrada para um texto poético, é um termo epopeico: Maravilhoso, Maravilhoso Conselheiro, que re-ensinará a Moral, a Ética, a Sabedoria a um povo de entendimento entenebrecido, pela negra miséria do cativeiro na sua própria terra e do exílio.

Pelo maravilhoso do acontecimento, que foi o próprio Advento, sobretudo pelo Messias que em si foi uma maravilha sobrenatural, termo exclusivamente dedicado a Deus, no Velho Testamento. Não apenas se trata da Pessoa Maravilhosa, mas o próprio nome no conceito hebraico é nome Maravilhoso.

Termino neste parágrafo, reafirmando que Isaías, Dante da Poesia Bíblica, Profeta/Vate, Evangelista avant la lettre, retratou quase um milénio antes o percurso evangélico de Jesus Cristo, um trajecto histórico do Advento à Cruz, com uma meta-poética da Graça divina.

João Tomaz Parreira

[Notícia n.º 3581, inserida em 2010-02-09, lida 376 vezes.]

 

 

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