A CARNE E O CARNAVAL
Em consonância com as definições enciclopédicas, o significado da palavra “carnaval”ainda hoje não é muito claro. Há, porém, quem assegure que o sentido de “festa da carne” ou o período em que a “carne vale” é realmente o mais adequado. E obviamente não se refere apenas à carne que se ingere para alimentação… Nem sequer aos debragamentos dos chamados foliões antes que chegue a “quarta-feira de cinzas” com os jejuns quaresmais para fingir que temem a Deus… Numa sociedade em que a imoralidade, e até a amoralidade, vão sendo cada vez mais comuns e aceites como normais,(veja-se o caso da legalização do casamento homossexual, do divórcio, das uniões de facto, do aborto, da eutanásia; da recente retirada oficial em França, contra a definição científica da Organização Mundial de Saúde, do transexualismo como doença; do aumento em flecha de violações, da promiscuidade entre casais ou a pedofilia, o roubo sob as mais diversas formas, até as mais sofisticadas, e a a todos os níveis sociais) o período do Carnaval já não se distingue muito do que ao longo do ano vem sendo a vida de cada vez maior número de pessoas. Por mais máscaras que se ponham, já não é disfarçável a imagem real de tanta gente que rejeita o Amor de Deus e o Evangelho de Cristo e, portanto, o perdão e a restauração de uma vida pecaminosa e a conformidade com a santidade divina. Estamos na era do politicamente correcto e do relativismo e, portanto, os próprios fundamentos civilizacionais judaico-cristãos que enformaram toda uma Humanidade ao longo de milénios deixou de contar até para quem tem a responsabilidade de governar as nações.
O Senhor Jesus disse a Nicodemos que “o que é nascido da carne é carne”, mas “o que é nascido do Espírito é espírito”(Jo. 3:6). Logo, todos os seres humanos, descendência de Adão, são carnais, embora sejam alma e espírito também. E só o deixam de ser quando “nascem de novo” e se tornam “participantes da natureza divina”, Jo. 3:5, I Cor. 15:45: II Ped. 1:4. Não obstante, e até receber “corpos celestiais” na ressurreição dos mortos, continuamos nós, cristãos, os que recebemos Jesus como nosso Salvador, a ser dotados de “espírito, alma e corpo” (carnal), que devem ser plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”, I Tes. 5:23.
Daqui se conclui facilmente que, segundo as Escrituras, há homens carnais e homens espirituais. Estes são aqueles a quem Paulo se refere em Rom. 8:9: “Vós, porém, não estais na carne mas no espírito, se é que o Espírito de Deus habita em vós.”
Na carta aos Gálatas, 6:19:21, são definidas as obras da carne e revelado, portanto, o que o homem adâmico produz na sua vida sem Deus: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas…
Extraordinário e lamentável é que a natureza carnal, aqui tão eloquentemente tratada, ainda vá coexistindo, contra o que o Senhor deseja, com alguma frequência, na própria vida daqueles que já nasceram de novo. Por isso, a Palavra de Deus tem o aviso para os que “ainda” são carnais, I Cor. 3:1-3, a despeito do seu cristianismo sincero.
A Bíblia diz que “Elias era homem sujeito às mesmas paixões que nós”, Tia. 5:17. Paulo, homem profundamente espiritual, não obstante designa-se como “carnal” e explica que na sua carne “não habita bem algum”, Rom. 7:14 e 18, o que pode deixar muito boa gente perplexa, quiçá com um conceito erróneo da santidade. Trata-se mais de uma situação posicional de transição, do que um estado definitivo adquirido. A questão é resolvida quando o Espírito o inspira a escrever no cap. 8 e vers. 1 da mesma epístola: “Portanto agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o espírito”.
A questão é então de comportamento orientado e gerado pelo Espírito Santo segundo a Palavra de Deus e não, como todos nós já percebemos (até por experiência própria), pelo homem nos seus esforços e determinação religiosos. A carnalidade é o domínio da carne sobre o espírito do homem, enquanto, no cristão, é a sua preponderância relativa e eventual sobre o Espírito numa luta bem explicada em Gál. 5:17 – ela(a carne) “cobiça contra o Espírito e o Espírito contra a carne para que não (façamos) o que queremos” e é identificada por Tiago por “amizade do mundo”, que é “inimizade contra Deus”, Tia. 4:4. João explica melhor, ao escrever na sua Primeira Epístola cap. 2:16: “Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida. Não é do pai, mas do mundo”.
Para a questão da carnalidade, as grandes respostas para o cristão continuam a ser: “E não vos embriagueis com vinho em que há contenda(carnalidade), mas enchei-vos do Espírito.”,Ef. 5:18: “Os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências”, Gál. 5:24; “Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito”, 5:25.
“Andando no Espírito”, o que só pode significar uma vivência dominada pela obediência à vontade de Deus e uma grande dedicação à obra que Ele entregou à Sua Igreja para fazer(ir por todo o mundo e pregar o Evangelho), - e que cada um o faça da melhor maneira que sabe e pode- o crente “não cumpre a concupiscência da carne”, Gál. 5:16, e terá uma vida frutífera com o “fruto do Espírito”, representado nas suas várias expressões: caridade(amor), gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança…
Ao longo de todas as épocas da Igreja, e porque esta não é uma temática que apenas se coloque em tempos de carnavais, homens e mulheres de Deus comprovaram que este é o caminho apontado pelo Senhor para vidas de vitória neste mundo de pecado e de adversidades múltiplas.
O caminho da santificação passa incontornavelmente por aqui, propiciando consequências de paz e felicidade na vida dos que temem a Deus. Porque o objectivo do Supremo Ser, em Cristo Jesus, não é impôr normas e comportamentos impossíveis de suportar por cada homem ou mulher sujeitos a vicissitudes e circunstâncias como as que o mundo, hoje mais do que nunca lhes oferece, no que às tentações da carne respeita, deles fazendo criaturas amarguradas e frustradas. Na realidade, o cristão tem um Sumo Sacerdote, Jesus Cristo, “que em tudo foi tentado, mas sem pecado”, e que “pode compadecer-se das suas fraquezas”, Heb. 4:15. Ele mesmo nos deu o Espírito Santo que nos “ensina todas as coisas” e “guia em toda a verdade”, Jo. 14:26; 16:13 – não deixa os Seus filhos desamparados.
Vitor Mendes
Aveiro, 14 de Fev.2010
vitorinacio.mendes@yahoo.com