DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO E ECUMENISMO
Como cristão evangélico face ao texto bíblico concluo que tudo o que o homem possa considerar sobre Deus não merece confiança, é inconsistente... Sou um agnóstico face à religião, a todas as religiões, a todos os considerandos humanos sobre o divino, o espiritual, a eternidade.
O mesmo não acontece diante da pessoa de Jesus Cristo que, para mim e de acordo com o texto da Bíblia, é Deus connosco, Deus entre nós, Deus na nossa História, Deus que vem ao nosso encontro na nossa forma (de outro modo seria impossível), e nos dá a conhecer quem Deus é. Tudo o que de Jesus eu posso conhecer através dos que com Ele privaram e que se encontra no texto bíblico, é digno de crédito. Jesus para mim revela-me Deus, porque é uma pessoa divina.
Sou defensor e aproveito todas as oportunidade para dialogar sobre Jesus Cristo, mais do que isso, estou totalmente disponível para me juntar a quem quer que seja para em silêncio ouvir as palavras de Jesus Cristo que nos ficaram registadas, deixando-me interpelar por elas e ouvir algum comentário sobre as mesmas, ou até mesmo também comentá-las. Mas sempre as palavras de Jesus estarão para mim, num plano distinto dos comentários que sobre elas poderão ser feitos.
Não sou ecuménico no sentido do sincretismo religioso, na perspectiva de que todas as religiões são a mesma coisa e têm as mesmas perspectivas sobre Deus. Mesmo dentro do chamado monoteísmo existem diferenças fundamentais de compreensão sobre Deus, como é o caso da Trindade. Como cristãos e em conformidade com o que nela encontramos, consideramos que há um só Deus existente em três pessoas distintas. Só um Deus assim pode ser amor como declara a Bíblia. Até no aspecto ético podemos encontrar diferenças de entendimento entre as religiões.
O facto de existirem diferenças essenciais entre as diversas perspectivas religiosas e espirituais, isso não significa que as devemos ignorar, fingir que não existem, escamoteá-las ou até negá-las. O respeito só existe na compreensão e reconhecimento dessas diferenças. Da mesma forma que acontece em todas as restantes áreas do conhecimento humano não devemos temer as diferenças fracturantes que existem. É precisamente isso que acontece na ciência, na política, na filosofia, nas artes, etc.
Segundo a Bíblia existem fundamentos estruturais que são ofensivos para a cultura de todos os tempos e a nossa não é excepção. Uma delas é a própria divindade de Jesus Cristo. Esta divindade reforça a ideia central de que Deus é pessoa, distinto da criação. Não se trata portanto de nenhuma força vital ou energia cósmica. É por isso também que sendo Deus na forma humana, é o único que nos pode levar ao Pai. A segundo é a Sua morte expiatória, salvadora, remidora, redentora - ou seja na cruz Jesus Cristo substituiu todos os homens, morrendo em nosso lugar, para que por Ele pudéssemos ser perdoados e reconciliados com Deus. Ele pagou a nossa dívida. Daqui decorre que o relacionamento com Deus no tempo e na eternidade não é resultado das boas obras, mas única e exclusivamente pela graça, ou seja, trata-se de um favor imerecido que Deus nos estende. Nós não nos podemos salvar. As boas obras derivam da salvação. É Jesus Cristo que nos justifica, que nos torna justos, que nos santifica. Nesta mesma linha de entendimento o que cada homem precisa não é adoptar uma religião, qualquer que ela seja, mas experimentar uma transformação interior, na sua essência espiritual, a que Jesus chamou de novo nascimento. Trata-se de regeneração e não de reforma ou reciclagem. Aquele que é uma nova criação é feito um templo do Espírito Santo, e é no poder do Espírito que a vida cristã pode ser vivida. Em último lugar, embora possam ser adiantadas outras diferenças fracturantes, em virtude da Sua promessa nós esperamos a segunda vinda de Jesus em glória, e não qualquer hecatombe que mergulhe o planeta terra na morte, no nada, no vazio e no silêncio eterno. Em Jesus Cristo esperamos novos céus e nova terra em que habitará a justiça para sempre.
A liberdade de consciência, de confissão religiosa, de expressão pública da fé, de mudança de religião ou de não professar qualquer corrente religiosa deve ser salvaguardado e defendido sem silêncios comprometedores em todas as culturas, regimes políticos, maiorias ou minorias religiosas.
Foi assim mesmo que Jesus Cristo viveu entre nós. Sem se impor. Sem obrigar. Sem lançar mão da força, da manipulação, da demagogia, das falsas promessas. E podia tê-lo feito. Mas recusou-se a tal porque essa não é a Sua natureza, o Seu carácter, a Sua essência.
É dessa forma que Deus enquanto Criador soberano nos trata, porque foi assim que Ele nos fez.
Samuel R. Pinheiro
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