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DISCURSO DE ACEITAÇÃO GRAU "DOCTOR HONORIS CAUSA"

João Tomaz Parreira, 2010-07-08

DISCURSO DE ACEITAÇÃO GRAU “DOCTOR HONORIS CAUSA”

Universidade Sénior de Setúbal

Exmo. Senhor Reitor,

Exmo Senhor Vice-Reitor representante do Conselho Científico,

Minhas senhoras e meus senhores

Ao receber a distinção com que a vossa Academia me honrou, começo por agradecer-lhe consubstanciando o agradecimento e tornando-o superlativo em relação à Reitoria e ao Conselho Científico.

Como disse o meu escritor de eleição, Albert Camus, na recepção do Nobel em 1957, «qualquer artista deseja ser compreendido», e eu acrescentaria, mais do que admirado.

Estendo naturalmente os meus profundos agradecimentos aos meus amigos que se dispuseram a fazer uma construção da minha poesia e de mim próprio.

E à minha família que sempre soube perdoar-me eu ser um poeta.

As palavras que vou pronunciar seguidamente dirigem-se, quase todas, para a efeméride que este ano se comemorou, os 65 anos sobre a Libertação do que restava da banalização do Ser, do corpo e da Alma de mulheres, homens e crianças do Campo de Extermínio de Auschwitz.

Talvez tenha sido em 1995, numa fria manhã de Praga, atravessada a velhíssima Ponte Carlos, perante os vitrais da Sinagoga Velha da cidade, ocorreu-me que precisava de trabalhar melhor uma poética do Holocausto, como um tributo aos judeus assassinados.

Por quê ? Porque inebriado com a beleza dos vitrais, surgiu na minha mente um contraponto, a tal “pedra no meio do caminho”, a imagem do velho portão de Auschwitz.

Uma dialética entre a policromia da luz no vidro e a fealdade do ferro das trevas. Afinal a transferência para a imagética da poesia, ou para o meu simples imaginário poético de antigas imagens fotográficas que vi e li, na sua polissemia, no livro «O Flagelo da Suástica», pertença do meu velho pai, teria eu então 15 ou 16 anos.

Depois, sempre aproveitei tudo o que podia ter à mão para ler – parafraseando o Álvaro de Campos - sobre esse período incompreensível da nossa história europeia, tão fundacional no mal como no bem.

Confesso-vos que já nas décadas de 70 e 80 reagi às leituras com alguma prosa ensaística, literária ou simplesmente jornalística, quer em semanários regionais, quer em revistas religiosas, sobre esse terrível peso às costas da Humanidade do século XX, mas poema, poema, só fizera um:

«Os judeus são tristes

vestem grossos sobretudos

pretos e falsificam

seu sangue e sua carne

(…)

mas acordam com o fogo

de um nome na língua

não morreram com a boca

vazia.

A poética concernente ao Holocausto ou à designação mais abrangente, diria de universal tragédia, a Shoah (Catástrofe), começou a partir daí a ter impacto na minha poesia.

Reacção do subconsciente, agora reacção cultural, à observação de Theodor Adorno? Segundo o qual seria um escândalo fazer poesia depois de Auschwitz? É bem possível.

Mas lendo bem Adorno percebemos que não só a poética se tornou para ele insuportável, após a barbárie de Auschwitz, sobretudo a Ética, a Moral, a Educação, a Vida, tudo, sendo que fazer poesia após esse nome marcado a fogo nos braços dos judeus, é um acto bárbaro.

Escreveu ele: «[1] Writing poetry after Auschwitz is barbaric.» e assim "Não pode haver poesia depois de Auschwitz". Isto bem pode ser interpretado do seguinte modo, que o mundo ficou sem beleza. Mas não sem poemas.

No seu livro Teoria Estética, Adorno oscila entre negar a possibilidade de produzir arte depois de Auschwitz ou buscar nela refúgio ante um mundo que o chocava.

Adorno não deixaria de ter razão, e pouco antes da sua morte em 1969, terá escrito sobre a possibilidade de se repetir Auschwitz: « "Auschwitz começa sempre que alguém olha para um matadouro e pensa: eles são apenas animais."

Atrás falei de um livro, o facto é que teria de ir muito mais longe ao meu passado buscar referenciais em muitos outros.

E que me marcaram, indubitavelmente. É o caso da leitura que fiz do livro Poemas de Nelly Sachs, em 1967.

Marcou-me sem dúvida a poesia dessa Prémio Nobel, no que concerne designadamente a uma poética da diáspora judaica – o dístico «Um estranho tem sempre / a pátria nos braços», que utilizei no meu primeiro livro de poesias, em 1973; e, com mais dramatismo e sofrimento, os seus poemas em que refere de uma forma absolutamente lírica e metafórica, a história do mecanismo do extermínio pelos nazis, atingindo por vezes a metafísica da religião.

O poema

«Oh as chaminés

Sobre as moradas da morte engenhosamente inventadas

Quando o corpo de Israel desfeito em fumo partiu

Pelo ar -»

ainda hoje me toca como se o lesse pela primeira vez.

Mas também a sua poética em que os referentes foram a esperança e a saudade, dedicado aos que iriam construir a nova casa:

«Quando ergueres de novo as tuas paredes

O teu lar, a cama, a mesa e a cadeira -

Não dependures as tuas lágrimas em volta dos que partiram».

Outros livros houve que foram marcando o meu subconsciente, que me levaram a escrever artigos mais do que poemas. Lembro aqui «Para que a Terra na esqueça», mas sobretudo um pequeníssimo romance-biográfico, a que pouca gente editorialmente terá dado importância: «Requiem em Terezín».

A saga de uns músicos clássicos judeus que nesse gueto de Teresín, encenado para dar uma falsa «esperança de vida» e fornecer, alegremente, gente para os fornos de Birkenau, montaram contra o silêncio nazi o Requiem de Verdi, o que foi qualificado como um sonho, como uma loucura.

Claro que o autor, Josef Bor, aproveita para reconduzir o pensamento sobre um Outro silêncio, que o judeu europeu achava inefável e maior, o de Deus sobre os acontecimentos que pareciam por em causa a promessa divina no que dizia respeito aos hebreus:

« Olha bem!», gritaremos ao ouvido do nosso bom Deus, «olha o que fazem neste mundo à semente de Abraão! Isto não Te atinge? Não esqueceste a Tua promessa?».

Seria um trágico ajuste de contas, não fora tão somente a passagem do Requiem a lembrar a promessa de Deus a Abraão. Era um cântico orquestral, um grito nas trevas, e teremos de o compreender assim. Sobretudo erguido por aqueles que, com certeza, mais dia menos dia, iriam engrossar as nuvens sobre Auschwitz com as cinzas dos seus corpos.

O Holocausto, ou o seu nome técnico «A Solução Final do problema judaico», foi sendo decifrado por outras leituras posteriores e já muito no caminho entre os meus 40 e os 60 anos.

O admirável livro auto-biográfico de Primo Levi «Se isto é um Homem» com um significado psicológico não apenas a humanizar uma história, a do extermínio dos judeus, uma história de desumanidades, mas também a relatar ao pormenor como o quotidiano dos prisioneiros se concentra na ordem silenciosa da morte e na presença dos brutais guardas SS, que organizavam a morte.

Levi chega mesmo a afirmar que os alemães tinham a evidente necessidade histórica de matar os filhos dos judeus, a propósito de uma menina de 3 anos chamada Emília, que ao chegar ao campo foi levada imediatamente para a câmara de gaz.

Li, por exemplo, Paul Celan. Poeta de origem judaica, cujos pais morreram nesse campo de extermínio, sobrevivente do Holocausto, com sentimentos exacerbados de culpa por ter sobrevivido, escreve com o combustível do pessimismo adorniano, sob o peso da Morte, o livro «A Morte é uma Flor». A obra deste poeta é hermética e diria também construída com um expressionismo tardio. Mas é no volume «Papoila e Memória» que se encontra o célebre poema «Fuga da Morte»: (de que saliento estes brevíssimos e longos versos)

«toquem mais doce a música da morte a morte é um mestre que veio da Alemanha

grita arranquem tons mais escuros dos violinos depois feitos fumo subireis aos céus

e tereis um túmulo nas nuvens aí não ficamos apertados»

E Auschwitz voltou a ser a epifania da dor em alguns poemas que escrevi. Como arte, com certeza, mas sempre com o princípio orientador, uma vez mais de Camus, que dizia que a arte não era aos seus olhos um regozijo solitário. Neste caso, com um referente ou um sujeito poético tão doloroso, só poderia ser arte para partilhar uma imagem privilegiada dos sofrimentos comuns.

Mas sempre com a pergunta inquietante:

O Holocausto foi banalidade burocrática? Psicose, individual ou colectiva? O próprio Satanás? Ninguém tendo certeza sobre essa profundidade negra da História contemporânea.

Elie Wiesel – autor de “Testamento de um poeta judeu assassinado” - escreveria o que foi nunca saberemos, mas devemos anunciar, pelo menos:

que foi, que é.

O poeta tem essa função, igualmente, de anunciar.

Disse alguém que o poeta não é tanto aquele que melhor vê, mas aquele que guarda tudo aquilo que vê.

Dentro da câmara das nossas memórias, que às vezes é letal – pensamos no referido Paul Celan, que se suicidou no Sena, em Paris et pour cause -, vamos buscar sem premeditação os materiais para o nosso poema. Surgem para nos comover e fazer comover o maior número possível de homens.

A construção de um poema obedece à epifania do primeiro verso, que Mallarmé disse que nos era dado (o primeiro verso é dado, o resto construído), é construção nem sempre sobre as alegrias, e neste caso, é trabalho de amargura, sobre o Holocausto ou sobre Auschwitz. A função do poema é inquietar a linguagem. (Yves Bonnefoy)

O poema é o oferecimento de uma imagem. A poesia não significa, mostra.

No silêncio, só cortado pela voz do leitor, se o poema é lido em voz alta... a voz é o vento que faz ondular a seara e se esse vento ilustrador de imagens de alegria soasse na última das searas roxas de Van Gogh, o tiro sobre si mesmo não teria sido desfechado.

Em Auschwitz não houve a alegria universal, terá havido alegrias pontuais como se o condenado estivesse diante de uma parede sem porta e sem janelas e pudesse sonhar, houve alguma esperança, sobretudo nas crianças que não conheciam ainda a palavra morte.

Um paradigma ? Este poema, de autor anónimo, encontrado em língua yiddish na parede de um dos dormitórios de crianças desse campo de extermínio:

Amanhã fico triste,

Amanhã.

Hoje não. Hoje fico alegre.

E todos os dias,

por mais amargos que sejam,

Eu digo:

Amanhã fico triste,

Hoje não.

Tomo a liberdade de pensar que um poema na estrutura que o caracteriza, ritmo, rima, palavras, texto literário, pode preservar também esse acontecimento , e no caso do extermínio dos judeus, designadamente em Auschwitz e Birkenau, torna-o polissémico e global, pois tratou-se afinal da morte concentracionária, não de uma etnia, de uma cultura ou de uma religião, mas do Homem.

Polissémico, porque tratado num texto literário, tal lhe confere vários significados e o retira do limbo da história, que é pela sua natureza circunscrita a factos. Global porque, diria aqui, transfere esse evento para o conforto da universalidade partilhada pelos bons sentimentos dos homens.

Fala-vos, como bem compreendeis, um simples poeta com um sentimento da história, que quer testemunhar a história, e que nasceu dois anos depois de se começar a conhecer, embora mal ainda, todos os horrores do nazismo na Europa, dessa Europa tanto grega como teutónica, tanto latina como bretã, que produziu espíritos luminosos e geniais, na música e nas letras, e por ventura profetas na poesia e nas artes plásticas alemãs que deram pelo nome de expressionistas, lá pelos anos 20.

Poeticamente feita de referentes, diria mesmo com objectos comunicáveis na dialética sujeito – objecto, a poesia que tenho escrito contém um inevitável Eu poético, democraticamente ligado àqueles que sofreram.

Tenho contudo a lucidez de pensar que perante a enormidade chamada Auschwitz e o que representou num tempo histórico, o que escrevi e escrevo sobre o tema é irrelevante e estaria nos limites do patético se nele insistisse, porquanto não fui sobrevivente nem passei por lá...... Escrevo-o apenas como um irmão.

Seja como for não vejo outro exemplo na minha mais recente e modesta obra poética, que o poema que dá título ao último livro «Os Sapatos de Auschwitz». Sapatos que são referenciais de caminho, de um trajecto – e que outra coisa tem sido a vida dos judeus desde o ano 70 D.C, senão um caminhar de andarilho pelo mundo?

Por estes sapatos que tiveram

dentro da noite os pés

arrastou-se a eternidade.

Aonde vão os pés a flutuar?

Subindo uns pelos outros

os sapatos têm cor de cinza

como a cinza dos corpos

que anoitece o ar.

Estes sapatos traspassam

nossa alma

como um rio de névoa

como um rio de lama.

Estes versos reconduzem-me ao que na realidade sou, um observador, e aos limites das minhas observâncias poéticas.

Permitam-me, finalmente, uma apreciação da política, a introduzir uma ética humanista na história do Holocausto:

Um antigo vice-presidente do Bundestag, na década de 50 afirmou: « É desesperante que as pessoas continuem a discutir se foram mortos 5 ou 6 milhões de judeus.

A única pergunta que se põe é se foi um ou mais do que um».

Mesmo e só por esse um, a poesia não poderia deixar de existir, contrariando o grito de Primo Levi, no início do seu poema «A Estrela Negra»: «Nenhum canto mais de amor nem de guerra».

Ao terminar com aquela citação, o que pretendi dizer é que continuarei a escrever poesia sobre Auschwitz, na perspectiva de que um só homem, judeu ou de outra nacionalidade, são 6 milhões.

Termino, dizendo-Vos que a memória do Holocausto, do extermínio de 6 milhões de judeus no século XX, continuará a caminhar descalça, silenciosa mas ininterruptamente, sem sapatos, sem a areia do Sinai, que foi espalhada quando tiveram que se erguer nus perante a morte.

Mas o Poema, haverá sempre um poema memória textual poiética do passado e do futuro, haverá sempre um poema a testemunhar esse acontecimento.

(c) J.T.Parreira

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[Notícia n.º 3607, inserida em 2010-07-08, lida 123 vezes.]

 

 

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