ANDAR SOBRE AS ÁGUAS
Alguns analistas da sociedade ocidental dos nossos dias começam a designar a cultura contemporânea como liquefeita, sem consistência, sem solidez. Do estado sólido passámos a um estado líquido e não demorará muito que teremos que recorrer ao estado gasoso, ou ao vazio para descrever o que vai acontecendo à nossa volta (o que já tem os seus precursores).
O desafio que se coloca aos cristãos individualmente considerados e às igrejas locais é tremendo. Não temos que temer porque muitos são os casos em que a Bíblia faz referência à manifestação do poder de Deus sobre a imensidão das águas, como foi o caso da travessia do Mar Vermelho pelo povo de Israel, perseguido pelo exército bem apetrechado do Egipto sob o comando do próprio Faraó; o caso da passagem do rio Jordão a pé enxuto quando o mesmo povo de Deus deu entrada na Terra prometida, as várias vezes que Jesus acalmou as tempestades no mar da Galileia, ou quando Ele caminhou por sobre as mesmas águas revoltas que acaba por dar título a esta reflexão.
A ausência de valores não é de modo algum um obstáculo intransponível para o discípulo de Jesus Cristo. Como já anteriormente temos feito referência a essência do evangelho, da mensagem e da vida de Jesus não é moralista, mas redentora, transformadora, libertadora. A religião e a filosofia, a educação académica e formal, a instrução familiar podem transmitir valores, alimentar as aparências e a hipocrisia, maquilhar o indivíduo, mas não podem de modo algum torná-lo um filho de Deus, perdoar-lhe os fracassos passados, presentes e futuros, e comunicar-lhe vida espiritual que provoca mudanças na mente, na vontade, na consciência e até nos sentimentos, emoções e afectos.
Neste caldo de cultura assistimos a um despertar leviano de demónios através dos meios de comunicação em séries que se “entretêm” a simular sessões espíritas procurando o contacto com o “além”, telenovelas em que os vampiros povoam a “fantasia” e a “ilusão” de argumentos pretensamente inofensivos, títulos bombásticos do género “com o diabo no corpo”. Tudo isto pode ter muitas leituras, mas nenhuma delas pode esconder-nos o facto de que a alma humana contínua sôfrega do espiritual, do amor, da graça, da santidade e da justiça divinas que estão ao alcance da nossa mão e do nosso coração na pessoa de Jesus Cristo.
Com Ele continuamos a poder caminhar sobre as águas, sem receio dos temporais, das tempestades, dos ventos contrários, ou das teimosas acalmias que nos querem amarrar à letargia, à indolência, à apatia, ao “deixa andar”, à condescendência, ao comodismo, à apatia e à indiferença.
Jesus não nos permite tal atitude. Com Ele e n’Ele temos que continuar a denunciar a doença do pecado que devora o homem por dentro, as mentiras do inferno, a impressão de que nada se pode fazer, a prisão do acaso e do determinismo materialista, naturalista ou espiritualista. Com Jesus é possível mudar de vida, dizer não a tudo o que nos quer roubar a humanidade que no retrato bíblico é “imagem e semelhança de Deus”, perdida no Jardim do Éden mas reencontrada na cruz em que Jesus Cristo morreu em nosso lugar e na vitória que alcançou sobre a morte. O naufrágio cósmico, espiritual e moral, cultural e político, económico e ecológico, individual e social tem em Jesus o salva-vidas. Ele veio para nos conduzir salvos e seguros até ao bom porto da casa do Pai.
Samuel R. Pinheiro
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