Observatório-Textos-Religião

enviar a um amigo imprimir Página Anterior
O SUSTENTO DA IGREJA

Daniel Barbosa, 2010-07-15

O Sustento da Igreja

Lembro-me como se fosse hoje, era eu criança quando fui ao café com a minha mãe e pedimos algumas coisas para comer, um bolo, galão, um pão, um café... Quando terminámos, a minha mãe perguntou quanto devia e entregou uma nota dos saudosos escudos. A senhora do café devolveu-lhe o troco. Fiquei a observar aquela troca e reparei que a empregada tinha dado uma nota e mais umas moedas à minha mãe. Fiquei maravilhado! Tinha presenciado a minha mãe a fazer um excelente negócio!

Devem estar a pensar, que excelente negócio foi esse? Passo então a explicar: o que eu vi foi a minha mãe a dar uma nota e em troca recebeu outra nota e ainda algumas moedas! Ora, recebeu mais do que o que deu. Já era claramente um excelente negócio, mas não ficou por aqui, pois pensei... e para além disso, ainda comemos o que nos apeteceu.

Foi nessa altura que procurei saber mais acerca deste maravilhoso negócio e me deparei com a realidade. A nota que a minha mãe recebeu não era tão valiosa quanto aquela que tinha dado, e as moedas... pouco valiam! (Penso que foi a partir desse dia que o gosto pelos negócios começou a despertar dentro de mim.)

O que tem esta história a ver com o sustento da Igreja? Nada! Bem... a não ser que possamos colocar a hipótese remota de que o meu erro de análise enquanto criança, também aconteça entre os adultos! Estou sujeito como profissional de Gestão Financeira, a ser confrontado com a afirmação de que uma Igreja não é gerida como uma empresa, com a qual concordo plenamente. Mas penso que a Igreja tem que ser gerida por princípios básicos de gestão.

Os pontos que distinguem as finanças de uma Igreja de qualquer outra instituição são o facto do valor das ofertas ser muito superior ao valor inscrito na face de uma moeda ou de uma nota (o valor de uma pequena moeda dada por uma viúva pobre, a qual deu tudo quanto tinha, é incalculável)1 e, também, o facto de as empresas viverem para o lucro, mas a Igreja viver pela fé.

As finanças da Igreja têm que ser geridas com rigor, transparência, verdade e seriedade, de forma a honrar, primeiro a Deus, como bons despenseiros, mas também àqueles que contribuem, colocando muitas vezes a sua fé e amor, nos seus actos. A confiança da Igreja é estabelecida quando há sábia gestão – como diz na Bíblia – “Não havendo sábia direcção o povo perece.”2

Uma regra que todos conhecemos, mas que muitas vezes esquecemos na prática é a de que não devemos viver acima das nossas possibilidades, nem dar passos maiores que as nossas pernas. Deus ensina-nos a nunca começarmos os nossos projectos pelo telhado,3 mas... quantas vezes tal acontece?

Gostava de dividir o tema da seguinte forma: 1) Constituição de uma Tesouraria; 2) A organização da Tesouraria; 3) A Tesouraria como um órgão da Igreja; 4) O Carácter de uma Tesouraria; e 5) A Comunicação da Tesouraria.

Em primeiro lugar, toda a Igreja deve ter uma Tesouraria, a qual é despenseira, guarda e fiel depositária das contribuições feitas pelos seus membros. Sempre que possível, a função deve ser exercida por um membro da Igreja, reconhecido por esta, em primeiro lugar pela sua espiritualidade e depois com capacidades técnicas, ou seja, uma pessoa que tenha provado ser fiel no pouco, para que o muito lhe seja confiado. O exercício desta função por um Obreiro deve ser evitado, de forma a não desviar a atenção do mesmo.

Em segundo lugar, é possível, hoje em dia, as Igrejas possuírem Contabilidade Organizada (segundo regras oficiais de contabilidade) ou, não querendo significar desorganização, uma contabilidade simplificada (entradas e saídas). Independentemente do modelo adoptado, a mesma deve estar bem documentada, com clareza e auditável pelos Conselhos Fiscais correspondentes. Sempre que exista a compra de um bem, ou de um serviço, o mesmo terá que ser documentado por documento fiscalmente aceite: Factura / Recibo / Venda a Dinheiro. A situação financeira deverá ser conhecida no final de cada mês para que seja possível tomar decisões, sustentadas em dados concretos.

Em terceiro lugar, a Tesouraria não é um órgão independente. A Tesouraria deverá ser um órgão social da Igreja, respondendo em primeira instância à Direcção da Igreja e depois à Assembleia. A Tesouraria deverá fazer cumprir escrupulosamente as decisões de carácter financeiro deliberadas em Assembleia. A Tesouraria paga e recebe o que é decidido, cumprindo a lei, prestando contas dos seus actos.

Em quarto lugar, ao fazer cumprir as decisões e a lei, ao solicitar facturas de todas as compras, o Tesoureiro demonstra o seu carácter, para além de cumprir a Palavra de Deus. O pagamento dos impostos é um dever e a Igreja deve ser um exemplo no cumprimento de tal dever.4 Resistir à tentação de pagar compras sem factura é importante para manter a bênção de Deus. A fuga aos impostos é pecado! Quem o faz não é digno de ser Tesoureiro.

Finalmente, na prestação de contas, o Tesoureiro deve ser claro, transparente, realista e verdadeiro. O Tesoureiro deverá ler saldos negativos quando eles existem de facto, com a mesma verdade com que lê os saldos positivos. É dever do Tesoureiro alertar quando prevê dificuldades financeiras, procurar eliminar despesas supérfluas e alertar para eventuais despesismos.

O dinheiro tem a sua parte na actividade da Igreja, mas não é de todo o mais importante, pelo que, o seu lugar deve ser cuidadosamente analisado e ponderado. Temos uma realidade bastante díspar, igrejas com poucos recursos financeiros e outras que vivem mais desafogadas. Igrejas que investem, igrejas que poupam. Uma coisa sei, a propagação do Evangelho não depende da existência de dinheiro. O dinheiro é como uma chave, tem a capacidade de abrir portas, é um facto, mas não menos factual é que a mesma chave também fecha! Tenhamos sempre em mente de que, o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males.5

Uma coisa aprendi há muito tempo, a aparente falta de recursos não impede de alcançar os sonhos! Na Bíblia lemos as palavras do Apóstolo Pedro: “Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho, isso te dou. Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda.”6 Com esta frase pretendo passar a outro nível do sustento da Igreja. O verdadeiro sustento da Igreja não está no dinheiro que ela possui, pois o que seria das Igrejas que vivem com tantas dificuldades? O verdadeiro sustento da Igreja está em Deus, que sustenta o Seu povo sem dinheiro mas pelo Seu poder!

Aquele que confia em Deus e tem os seus pés bem assentes na Rocha (Cristo), esse caminha pela fé, a Graça de Deus lhe basta, não mendigará o pão, Deus o vestirá. O sustento de Deus está no seu Amor e na nossa obediência. Quando aprendemos a conjugar um verbo, o “eu” vem primeiro, o “tu” vem em segundo e o “ele” em terceiro. Deus ensina outra ordem: “Deus”, “eu” e depois o “tu”. Se conjugarmos o verbo “dar” ficaria assim: Deus dá, eu dou, tu dás. Deus nos ensinou a dar porque Ele mesmo deu. Quando falamos em contribuir para a obra de Deus, não esperamos que Deus nos dê algo em troca, Ele já deu! Agora eu dou por amor e não por regra, dou com gratidão e não por tradição. Deus instituiu a Igreja para fazermos parte dela, por isso contribuímos fielmente para o seu sustento, pois Ele tem sido fiel para connosco que fazemos parte da Sua Igreja.

Gostava que tomasse consciência de que uma oferta não é uma esmola. Quando ofertamos algo, não estamos a dar uma moeda, estamos a mostrar gratidão e com alegria o fazemos e com confiança que Deus cuida de nós, mesmo quando o dinheiro falha, quando não há pão sobre a mesa – aí está a PROVISÃO de Deus. A Bíblia mostra-nos exemplos disso quando no Antigo Testamento uma nação foi alimentada sem dinheiro, um povo foi sustentado por 40 anos sem dinheiro!7 E, no Novo Testamento, vemos Jesus a suprir as necessidades espirituais e também físicas das multidões que a Ele recorriam.8

Em Isaías Deus diz: “Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a destra da minha justiça.”9

Termino com uma palavra para aqueles que estão aparentemente, com dificuldades financeiras, sem sustento, até quem sabe, sem pão sobre a mesa: Diga a Deus que O ama, que Ele é o seu sustento, que confia n’Ele a situação pela qual está a passar. Pergunte a si mesmo, o que Deus quer que você faça, olhe à sua volta e execute, não fique parado, creia, conquiste!

Daniel Barbosa

Marcos 12:41-44; 2 Provérbios 11:14; 3 Lucas 14:28-30; 4 Mateus 22:21; 17:24-27; Romanos 13:7; 5 1ª Timóteo 6:10; 6 Actos 3:6; 7 Deuteronómio 8:3,4; 8 Mateus 14:14-21; 9 Isaías 41:10

[Notícia n.º 3613, inserida em 2010-07-15, lida 194 vezes.]

 

 

 Pesquisar Temas

 

 Devocional

 Reflexão

 Leitura diária

 Pensamentos

 





Início | Contactos                                                                              Powered by Netconquer

© Copyright 2003 Aliança Evangélica Portuguesa, AEP. Todos os direitos reservados.